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30
Nov16

Da dificuldade de fazer das palavras poesia

por Cláudia Capela Ferreira

Rita Taborda Duarte

André da Loba

ROTURAS E LIGAMENTOS

abysmo

Junho 2016 (2.ª ed.)

 

 

O último livro de poesia de Rita Taborda Duarte, Roturas e Ligamentos, merece pausada atenção, ou não falasse da palavra como um sopro, um esforço nítido no tempo do desconcerto da mesma. Com a bela intervenção de André da Loba, um em rotura, outro em ligamento − como, aliás, o próprio livro, uma elevadíssima criação de Dulce Cruz, peça também ela ligada, cosida, assim como o coração, após a tal da rotura −, toda a composição é equilibrada nesses dois termos que lhe dão título, e que, por serem antónimos, são contíguos.

Não há, nesta grafia afiada de Rita Taborda Duarte, lugar para o excesso, ou para a míngua; as palavras, «como pedras», todas se alinham afinadas no verso, transgredindo sempre, afinal, ou não abrisse o livro com o poema «Concluindo», buscando Manoel de Barros como amparo para o caminho que se fez. As «Roturas» vêm seguidas dos «Ligamentos» e estes de «Fractura Exposta e seus Instantâneos».[1] E é na primeira das três partes que Rita Taborda Duarte, no meu entender, é mais consistente na defesa de uma ideia, de um tema, apostada na construção de um conceito de palavra e de poesia, por vezes cínico e sempre irónico, em que o amor também alcança a sua parte. É ele, de facto, a razão para esta rotura, a da poetisa com a palavra e a da palavra com o mundo, num espaço de incomunicabilidade quer oral, quer escrita, já que «a fala é sopro que não voz» e a «escrita é brisa». Falamos do amor ou da indizibilidade do mesmo e do seu fim. E da rotura, pois «amor se é amor é amor não dito amor-palavra-tacto».

No segundo poema desta primeira série, «Lá fiz o poema», a poetisa justifica a sua ars poetica, na medida em que desnuda códigos arcaizados, no seu entender, satirizando os «silenciosinhos cúmplices», «a musa do outro arrastada pelo cachaço», delegando em si, enquanto poeta, a feitura do poema. O título atesta esse aparente distanciamento da sua produção, ironizando o resultado, mau, sem existência passível de destruição sincera, «e nem uma folha, ao menos, para amarfanhar», não fossem as palavras mero sopro e indizíveis os fenómenos. Há, pois, uma tentativa de reabilitação da palavra, essa necessidade de a dizer como se fosse a primeira vez e a desilusão que o resultado traduz.

Em Roturas e Ligamentos, a poetisa procura servir-se das palavras que, essas sim, arrastadas pelo cachaço, se rebelam na folha e consequentemente no poema, nunca aderindo ao seu papel descritivo, ao objeto a que estão associadas ( «Sequer vento emaranhando o teu cabelo» ou «Qualquer nome lhe daríamos, ao amor/ e o resultado seria sempre o mesmo»). O nome pelo qual o real responde escusa-se a essa mesma resposta, está aquém e além do ontológico, embora só as palavras possam, afinal comunicá-lo. E assim, observamos este jogo entre os poemas e as ilustrações, criações independentes e simultaneamente dialogantes, como a prova de que as metáforas de RTD sobrevivem nas imagens de AdL e vice-versa, como se maçã, escrita no poema e maçã, desenhada no papel, fossem da mesma realidade do fruto. A frivolidade da palavra toma aqui jeito na experimentação da linguagem, da repetição de campos vocabulares, desse empecilho linguístico que fala mas não nomeia, para desgosto das partes. Há, portanto, um diálogo a tender para o fenomenológico entre RTD e AdL, na medida em que a maçã a apodrecer de uma é tecnicamente esclarecida no desenho inequívoco do outro.

A palavra, ou antes a metalinguagem − metapoesia − aflora em quase todos os poemas, agitando-se como quem se afirma através da negação de si, ou pelo menos da negação da sua seriedade. Palavra, poema, metáfora, letra, dicionário, língua, mão, corpo: é nestas palavras feitas símbolo no poema que RTD pretende dizer o mundo, aquilo que nomeia o amor, e que ambiciona fazer vazar para o corpo, ainda que a desilusão se sobreponha: «Escrevi-te o poema   dicionário ao lado/ (…) Mas nem ao de leve te raspou a pele». Encadeando as palavras com o objeto a que elas se referem, pretende a poetisa uma consubstanciação? Irónica, faz ou procura fazer da palavra, enquanto unidade mínima, o bastante, embora ela se esfarele, relembrando poemas de Nuno Júdice, já que, para a poetisa, as palavras também se confundem: convoque-se «Semiologia», o amor, a solidão, o medo, «e a vida, que também é uma palavra» e leia-se «Chamam-lhe amor».

Mas desengane-se quem vir nestas roturas algum lamento ou tom elegíaco, confessional; RTD escoa o poema desses artifícios, deixando-o escorreito no sentido e nas metáforas, que esvaziadas, também elas, de pulsões delicadas, seja pregando borboletas esmagadas nos poemas, seja nas despedidas, aquando do retomar das beatas apagadas, clarificam a construção de um conceito em torno do qual descreve a palavra, a poesia, o poetar, para o desfazer, depois, como o amor. E para isso percorre «Os cantos ao dicionário», recorre à palavra-cachimbo (essa traição!), «um corpo em breve combustão/ e logo se apartando em fumo e cinza», para terminar: «O papel que tu tinhas na minha vida?/ Acho que o perdi./ Eu nunca me dei bem com papelada…»

 

[1] No texto, respeita-se a grafia das edições citadas.

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