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Nas páginas iniciais de Half of a Yellow Sun, Ugwu, o jovem aldeão, decide pedir licença ao seu senhor para criar um jardim de ervas, onde lhe seja possível manter a erva arigbe, “his herb of forgiveness”, aquela que amansa o coração do homem (Adichie 2014: 17). Este anseio do jovem Ugwu torna-se assaz relevante quando perspetivamos a obra sob o ponto de vista da contenda e do congraçamento subsequente. Enquanto um dos elementos em que a focalização tripartida assenta, esta personagem estabelece igualmente a exposição do seu desenvolvimento. Neste sentido, Ugwu, o conciliador, procura reconciliar-se consigo e com a realidade através do livro The World Was Silent When We Died. Assim, é através da palavra, da criação literária, que Ugwu, a voz destroçada de um país que não chegou a ser, enfatiza a criação de uma identidade regenerada sobre os escombros da guerra. Ação, aliás, inviável a Richard, outro vértice focalizador, uma vez que, ainda que solidário com a causa biafrense, este, numa das suas camadas, representa um forasteiro em busca de identidade, de um local a que possa chamar casa, mas que não se circunscreve inteiramente ao povo igbo. Olanna, o terceiro vértice a ser contemplado nesta construção tripartida do discurso de Chimamanda Ngozi Adichie nesta obra, é, igualmente, estabelecida com contornos redondos, nunca planos, que a propriedade estática é contrária à evolução, à descoberta, e é morte certa.

Desta forma, mais do que um narrador heterodiegético, ao jeito genettiano, e de uma focalização difícil de decifrar (uma intermitência entre focalização interna e externa, na medida em que N = P (cf. Todorov) e N ≤P, já que, é através da focalização da personagem A que conhecemos a personagem B, através daquilo que exterioriza; cf. noções de focalizador e focalizado), socorremo-nos da teoria de Franz Stanzel. Se, com o autor, “narration is the most important starting point for the shaping of the subject matter by an author of a narrative work” (cit), então uma breve alusão à focalização torna-se pertinente num estudo que analisa a temática da(s) identidade(s) numa obra cujo assunto gira em torno da construção e desconstrução da noção de nação. Assim, a sua tipologia de situações narrativas ou pontos de vista narrativos assentam na conceção tripartida: authorial, first person e figural. A última reflete a técnica dominada pela perceção interna das personagens, e que, de acordo com “Focalisation and Polyvocality in Chimamanda Ngozi Adichie’s Half of a Yellow Sun” de Aghogho Akpome, persiste nos focalizadores da obra. De facto, Stanzel explica: mediating narrator is replaced by a relector: a character […] who thinks, feels and perceives, but does not speak to the reader like a narrator. The reader looks at the other characters through the eyes of this relector-character. Since nobody narrates in this case, the representation seems to be direct. Thus the distinguishing characteristic of the figural narrative situation is that the illusion of immediacy is superimposed over mediacy ()

Mieke Bal alerta também para a relevância do focalizador, pois este influencia a forma como o conteúdo narrado é percecionado pelo leitor. Portanto, através dos olhos de Ugwu, Olanna e Richard, estas e outras personagens, essencialmente Odenigbo e Kainene, bem como o contexto socioeconómico e cultural da Nigéria face à independência, são motivos de foco. Janh , por sua vez, distingue o narrador do refletor, a par de Bal, que havia já criado o neologismo “narrador-focalizador” e, segundo Akpome, “traces focalisation in the modern era to writers whose interest was not in ‘realistic representations of external phenomena but in presenting the world as it appeared to characters subject to beliefs, moods, and emotions”.

A focalização, posta nestes termos, assegura que certos modelos de representação da identidade das personagens seja preservada e posta em prática pelos próprios focalizadores (que são simultaneamente focalizados), já que o leitor tem acesso direto às consequências das ações ocorrentes no mundo que os molda, bem como às ilações daí retiradas. Veja-se um exemplo, em que o narrador e Ugwo, enquanto focalizador, se confundem: “he did not know why he had ironed the socks, why he had not simply done the safari suit. Evil spirits, that was it. The evil spirits had made him do it. They lurked everywhere, after all. Whenever he was ill with the fever, or once when he fell from a tree ” (Adichie 2015: 16).

Esta polifonia de vozes, a de Ugwu, a de Olanna, a de Richard, confundindo-se com as de um pretenso narrador, contribuem para a tentativa de fixação de identidade pessoal e de identidade nacional, de acordo com as diversas mentalidades, origens sociais, culturais e personalidades dos intervenientes. Assim sendo, o desenvolvimento da narrativa, a evolução das personagens e o avanço do enredo, flui através da representação simultânea de vários pontos de vista, sublinhando a anulação de uma só verdade, de uma só identidade, de um estereótipo, e afirmando a riqueza dos múltiplos olhares. Formalmente, o narrador parece desconhecer o espaço íntimo da personagem e é esta quem dirige a descrição, de acordo com o seu parecer: “He finally looked at her as she and Master sat down at the table. Her oval face was smooth like na egg, the lush colour of raindrenched earth, and her eyes were large and slanted and she looked like she was not supposed to be walking and talking like everyone else” (Adichie 2014: 23).

Nesse sentido, Adichie arrisca a construção da história do seu país e especialmente do Biafra, dada a narração do seu nascimento e da sua morte através das três vozes essenciais, cujo olhar se desloca da periferia para o centro ou do centro para a periferia: Ugwu, enquanto narrador-fazedor ou fundador da sua identidade pessoal e nacional, Olanna como representação da presença e relevância da voz feminina e, por outro lado, Richard, voz que se cala à evidência de ter sido o portador de um esvaziamento de sentido identitário, na medida em que a representação colonial do outro é a do inferior, do marginal. Desta forma, numa leitura imediata, Richard é a voz desmascarada da autoridade europeia. Essa transgressão de fronteiras, como explicita Elizabeth Oldfield, assenta no próprio ato de escrever: a nível autoral, de Adichie, e a nível romanesco, de Ugwu, já que as vozes femininas relatam igualmente uma história, criando a sua identidade, e o dito “local”, ou outro, se vê confrontado com a possibilidade e necessidade de se dizer. De acordo com Werner Lenz, the “only truh”, desta forma, “no longer give a sense of reliance” (1994).

The World Was Silent When We Died, metatexto, apresenta, quanto à sua génese e situação autoral, alguma confusão inicial, imbricando ainda uma perspetiva holística, fixada no pronome do título, na primeira pessoa do plural, numa espécie de mise en abyme. Este “nós” preconiza, então, a voz interior e não a que observa de longe, soterrada em paradigmas europeus e na sua definitividade. Por outro lado, torna-se, afinal, a declaração de uma identidade em falência: trata-se da história da República do Biafra e dos seus habitantes, da tentativa de declarar a nação, por via da orquestração também ela polifacetada da narrativa. De facto, convoca o povo igbo, fala por ele, e, assim, Chimamanda Ngozi Adichie afasta o perigo da história única, como defende, convidando o seu próprio povo à narração das suas próprias estórias. Nesse sentido, Richard não seria indicado para fazê-lo e, metaforicamente, os seus escritos são queimados às mãos de Kainene, numa espécie de anulação da imposição da sua voz única e, simultaneamente, da própria redenção de uma personagem também ela em demanda. Por outro lado, a sua impotência inicial revela a impossibilidade de o ocidente, que durante anos criara artificialmente a identidade nigeriana, e africana, diga-se, lidar com a realidade dos seus povos, o que encontra semelhança na sua incapacidade literária. O livro, almejado por Richard desde o primeiro momento só é alcançado às mãos de Ugwu: a identidade Igbo, do Biafra, do povo que fora vário, depois anexado e colonizado pelos Britânicos, restaurado na sua independência e subsequentemente, espargido pela promessa de liberdade, ocultada pela guerra e pela fome, e a sua reconversão final à nação nigeriana, é, pois, uma polifonia. Em prosa, verso ou tom de reportagem, o livro oferece diversas formas através das quais Adichie explora a história da Nigéria e pensa a forma da narrativa. É, afinal, um convite à narração de várias histórias. A desconstrução da narrativa dominante alerta o próprio povo para a importância da sua própria perspetiva, restabelecendo, desse modo, a sua narrativa e, assim, a sua identidade.

Olanna e Kainene são a prefiguração de duas nações em silêncio. As irmãs, gémeas, convivem com a mudez, numa família que é o rosto da nação pós-colonial, na medida em que as divergências, os conflitos e os desencantos se sobrepõem e constrangem os elementos. O facto de serem irmãs não as reúne em consenso e não impõe qualquer lugar de comunhão. De facto, a sua mudez perde-se no tempo: They used to be friends. She wondered when it all changed. Before they went to England, for sure, since they didn’t even have the same friends in London. Perhaps it was during their secondary-school years. Perhaps even before. Nothing had happended – no momentous quarrel, no significant incident – rather, they had simply drifted apart (Adichie 2014: 37).

A relação com os pais, aqui simbolicamente representantes da obrigação moral e institucional para com os seus filhos, talvez um governo e os cidadãos da nação, é conturbadíssima. De facto, alerta-nos para a corrupção de valores nobres e humanos, para a coisificação do indivíduo: “She wondered, too, how her parents had promissed Chief Okonji an affair with her in exchange for the contract. Had they stated it verbally, plainly, or had it been implied?” (Adichie 2014: 32). Portanto, grassa um grave sentido de perda, de afastamento e de despudor entre pais e filhos, entre aquele que deve proteger e aqueles que devem ser protegidos. Por outro lado, é uma chamada de atenção para o desrespeito da mulher, que Olanna contraria, graças à orientação de Aunty Ifeka: “You must never behave as if your life belongs to a man” (Adichie 2014: 226). A nível institucional, a desconsideração da pátria por si mesma, em função dos interesses próprios, personificada pelas altas patentes, é evidente e desconcertante. Aliás, a promiscuidade entre a política e os negócios, a ineficácia policial e a corrupção são temas repetidos na obra de Adichie, tidas como verdadeiras barreiras à evolução. Olanna, sobre a irmã, representante do pai em negócios com os expatriados endinheirados, reflete: She had never liked any of Kainene’s boyfriends and never liked that Kainene dated so many white men in England. Their thinly veiled condescension, their false validations irritated her. Yet she had not reacted in the same way to Richard Churchill when Kainene brought him to dinner. Perhaps it was because he did not have that familiar superiority of English people who thought they understood Africans better than Africans understood themselves and, instead had an endearing uncertainty about him – almoust a shyness (Adichie 2014: 36).

Sob o olhar de Olanna, acedemos a uma caraterização indefinida e dual de Richard: ele é o indefinido, que já não impõe, mas que também ainda desconhece. Ele próprio se torna outro: um inglês que demanda a sua identidade enquanto biafrense. A traição, familiar ou institucional, é um ponto fulcral, na medida em que apela à reconstrução de uma identidade que com ela conviva. No espaço político, torna-se necessário que o leste se afaste do norte, que recupere a sua história e raízes, e que as dignifique na construção da República do Biafra. As relações inconstantes entre Olanna e Odenigbo, Amala e Odenigbo, Olanna e Kainene, Kainene e Richard ou Olanna e Richard resultam de uma série de traições, cujo conflito sara, cicatriza e é ultrapassado, reconfigurando a conquista de um distanciamento crítico face aos intervenientes.

A crise identitária acompanha todas as personagens de Half of a Yellow Sun. De facto, o próprio título, além de reconhecer a bandeira biafrense, capacita uma leitura de incompletude: ela é o meio círculo, o da imperfeição que não se regenera, o sol que não se levanta inteiramente. A tragédia do incompleto perfaz uma busca nómada pelo que foi, pelo que poderá ser: nesse sentido, personagens como Ugwu, Olanna e Baby Chiamaka instauram um ponto intermédio entre as raízes tribais profundas e as realizações eventualmente positivas do colonizador, culminando num terceiro espaço, híbrido (cf. Bhabha e o desenvolvimento da teoria de hibridismo textual de Bahktin -rodape), um “in-between spaces”, que Odenigbo e sua mãe, personagem estática, incapaz de evolução, quer pessoal, intelectual e política, são incapazes de compreender e por isso sucumbem. Odenigbo desacredita a sua condição de académico, de pensador e intelectual, e Kainene, por sua vez, desaparece sem rasto, anulação eficaz de um dos semicírculos. Baby Chiamaka, filha da traição de Odenigbo com Amala, sob a convicção da mãe do primeiro, é acarinhada e educada por Olanna, sublinhando um espírito de pragmatismo e perseverança na construção do futuro, ainda que nascido do conflito. O próprio nome converge dois mundos opostos, o das raízes que se pretendem reconhecidas e memoradas, e o da presença ocidental, se assim lhe quisermos chamar. Baby Chiamaka, amálgama da nova identidade cultural, é quem emerge da fenda criada entra as diferenças culturais e representa o futuro em potência, como dissolução das antíteses. Porém, antes de alcançar este recomeço, denota-se em HYS a deambulação durante a guerra e a perspetivação de diversos elementos que congregam a nova identidade das personagens enquanto biafrenses. Esta viagem, imposta, que contribui para a condição de refugiado, de desabrigado e despojado, resulta num sentimento de estranhamento de si próprio, de desalento face ao sonho. Odenigbo será, talvez, aquele que reflete mais dificuldades em atender ao encontro de si mesmo: “I want this war to end so that we can come back. He has become somebody else” (Adichie 2014: 388), afirma Olanna a propósito. Trata-se da dificuldade em lidar com a corrupção, de si, dos seus valores, a par dos do país, da identidade de ambas associadas à formação utópica da nação.

Neste sentido, a bandeira biafrense, o hino nacional e a língua igbo, são elementos fulcrais e arquetípicos na construção da identidade pessoal, por extensão à nacional e que, ao fim da última, reconfiguram a primeira, dando às personagens um sentimento de vazio e instabilidade. Assim, apenas após a resolução do conflito interior, é viável à personagem abraçar uma nova identidade, reatualizada, sem culpabilização.

Em Americanah, acedemos a um retrato da Nigéria pós guerra civil através dos olhos de Ifemelu, expatriada nos Estados Unidos da América. Ora, a personagem abandona o seu país, o que lhe permite, em contacto com o outridade, pensar o conceito de raça, reatualizando a sua identidade não só em contacto com o seu país, mas como o espaço criado pela globalização.

Enquanto em HYS, a deambulação é fruto da guerra, à exceção da permanência das irmãs no Reino Unido, em Americanah, é um imperativo pessoal, académico. A questão da identidade, desta vez não se limita ao espaço das fronteiras nigerianas, nem ao período imediatamente posterior à independência, mas reporta-o, na medida em que se depreendem questões mal resolvidas cuja origem aí se encontra. As personagens de ambos os romances encontram-se distendidos entre o reconhecimento e a negação da identidade, e das origens, pelo que o passado é um arquétipo na construção do eu. Desta forma, a questão da identidade pessoal reporta-se diretamente à de identidade nacional, na medida em que o passado exerce um peso insondável sobre nós. E assim, apenas se o passado não for esquecido ou anulado conscientemente, é que o indivíduo permitirá a si mesmo desenredar-se do conflito trágico, através da consciência do eu e ascenderá à redenção ou à atualização da sua identidade.

Olanna, quando posta em perigo, nega a sua nacionalidade, a sua identidade. “She could not believe how easily it had been to deny who they were, to shrug off being Igbo” (Adichie 2014: 133). Por sua vez, Ifemelu, quando posta em causa através da língua, acanha-se e encolhe-se: Tinha falado inglês toda a sua vida, liderara o clube de debates na escola secundária e sempre achara a pronúncia nasalada dos americanos um pouco rudimentar; não se devia ter acanhado e encolhido, mas foi o que fez. E nas semanas seguintes, enquanto o tempo fresco do outono se ia instalando, começou a praticar um sotaque americano (Adichie 2013: 207) Acompanhando os diversos momentos de estranhamento, uma descrição de cegueira, tanto num romance, como no outro: “She did not know that things had come to this; In Nsukka, life was insular and the news was unreal, functioning only as fodder for the evening talk, for Odenigbo’s rants and impassionated articles” (Adichie 2014: 133). Mas é no discurso de Americanah que este véu mais se figura ao longo da narrativa, como forma de exteriorizar a cegueira interior: E teve a sensação súbita de um nevoeiro, de uma teia leitosa através da qual tentava agarrar as coisas. O seu outono de semicegueira tinha começado, o outono de perplexidades, de experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de sentido que lhe escapavam (Adichie 2013: 203).

Neste romance, posterior a HYS, Adichie extrapola a noção de identidade, dilatando-a, ao acrescentar a noção de raça. Portanto, o contacto com o outro efetiva uma busca de si profundamente marcada pelos conceitos de origem/passado, língua, nação/ nacionalidade, género e globalização.

Se em HYS se recorre à formalização do outro na figura da diversidade dos povos nigerianos, talvez do que até do que relativamente ao ocidente, fomentando a noção de que existem tantos outros como existentes, independentemente dos elementos que lhes possam ser idênticos, em Americanah a situação alarga-se ao mundo, especialmente ao anglófono, tratando novamente o tema da língua como um elemento no encalço da identidade, e, igualmente, como recriação de si. A noção de língua e de origem têm enorme peso no destrinçar identitário. De facto, é a personagem de Dike a mais explícita neste sentido: a sua desorientação e desconhecimento do passado, das tradições, da história do país de origem e da sua língua, efetivam a anulação de si, pois não se conhece realmente, o que o força a entregar-se ao suicídio. A língua igbo torna-se, para o jovem, em vez de língua de tradição, mera língua de conflito que ouve quando a mãe se aborrece. Este corte com o país natal, de que a língua constitui cordão umbilical mais expressivo, constitui a amnésia e a ausência da memória, fulcrais para a validação do eu holístico. É essa memória que Baby Chiamaka carrega, e que Dike, na sua impossibilidade, não pôde preencher, graças à reinvenção da personae exercida pela mãe enquanto expatriada nos EUA, após a queda do governo militar. Obrigada à fuga por motivos familiares, a personagem de Tia Ujo traça uma visão negativa relativamente à figura feminina nigeriana, chamando a questão de género enquanto potenciador da afirmação ou anulação de identidade a terreiro. Na perspetiva de Ifemelu: “perguntava-se se a Tia Uju alguma vez olharia para si própria com os olhos da moça que fora em tempos” (Adichie 2013: 118). Amante de um dos generais do governo militar, Tia Uju submete-se ao poder masculino, contrariando as suas convicções, anulando-se lentamente, até que no fim do romance alcança novamente a sua autonomia. Deste modo, também o género se instaura como um dos elementos da identidade. Não podendo ultrapassar as limitações impostas pela tradição obsoleta associados aos mesmos, a identidade corrompe-se. Neste sentido, Ifemelu, Olanna e Kainene protagonizam uma viragem ao encontro do questionamento da cultura dominante. Ifemelu é também, através do seu blogue, que na narrativa funciona como meta-narrativa, agente de produção de significado e de restruturação do social. A escrita torna-se instrumento de domínio que ela conquista. Essa conquista, porém, é morosa e difícil; o encontro com a sua consciência e identidade ultrapassam várias limitações; de uma forma geral, as implicações com o seu nome, com a aparência física – o cabelo que se quer “relaxado” - , com a língua, são, a nível formal, metaforizadas na simbólica associação de Ifemelu a outra pessoa, pelo facto de, inicialmente, esta usar os documentos de identificação de uma amiga da tia. Esta dispersão aparece condensada na frase seguinte: “Ao princípio, Ifemelu esquecia-se de que era outra pessoa” (Adichie 2013: 201).

Estipulámos, até ao momento, alguns elementos atinentes ao processo do reconhecimento ou construção da identidade. Abordámos a noção de pertença e de origem, da relevância do passado para compreensão do self, ainda a relevância profunda da língua de tradição e a ligação umbilical que esta estabelece relativamente às raízes e forma de estruturar o mundo, associada à nacionalidade ou à construção da não-utopia, enquanto lugar de realização plena, onde a questão social e de género ganham forma. Finalmente, coloca-se a questão: a questão de raça constitui igualmente um elemento identitário? Em Americanah, as opiniões asseveradas por Ifemelu no seu blogue reequacionam a questão: “A raça é ou não uma invenção?” (Adichie 2013: 458).

Por outro lado, esta reflexão, parece-nos, de alguma forma, ultrapassar um carácter nacional, e assim pós-colonial, na medida em que alguns dos arquétipos da narrativa de identidade pode ser associado a outras realizações, universalizando-se assim. De facto, o passado, as raízes e a língua de origem funcionam como uma alavanca que permite às personagens, nomeadamente Ifemelu e Obinze, uma abertura ao mundo. Em correspondência, Mia Couto e José Eduardo Agualusa abordam a questão da literatura e da identidade, bem como da literatura africana e a sua relação com o nacionalismo. Afirmando o passado como uma “mentira em que todos acreditam, uma espécie de ilusão coletiva credenciada pela urgência de haver um presente” (cf. Granta 54), Mia Couto responde à observação de Agualusa sobre o papel do escritor no incentivo à inquietação de onde saiam “ideias novas” (54). A literatura almeja, assim, a criação de identidades que, contudo, não se fica pelas raízes: “O pensamento tem um lado raiz mas tem um lado que é asa”, reflete Mia Couto (66). Ora, em Chimamanda Ngozi Adichie vemos claramente esta tendência para o voo, que parte das raízes sem se fechar nelas. Nesse sentido, questionar-se-iam uma série de rótulos que a própria escritora pretenda suspender quando afirma o perigo da associação de um indivíduo “as one thing, as only one thing, ove rand ove rand that is what they become” (citar). O estereótipo e a história única são incompletos e limitadores, pelo que a necessidade de “reganhar o paraíso”, (“regain Paradise”) se impõe (ver citação) através da aceitação de uma identidade em construção. Através da personagem Ifemelu e a sua diáspora, acedemos à noção de que a identidade unificada não existe, pois (acresc Hall e Maalouf – tese) esta encontra-se em permanente construção e evolução, sem que, por essa razão, o passado se dissolva. Ifemelu recria-se ao longo da história, experimentando peles diversas, híbridas, sem que, afinal, esteja perdida. A hibridização, num mundo globalizado, não se torna uma anulação, mas uma reconfiguração enriquecida, experimentada pela própria autora quando inclui trechos, interjeições, em igbo, tendo escolhido a língua do império para escrever. Possibilitada pela realidade infinita, o terceiro espaço torna-se o espaço de identidade. Estas afirmações poderão levar-nos a questionar o sentido de pós-colonialismo, de uniformização da globalização, a sua face mais terrível, mas também a criação de interstícios culturais, a que Ifemelu responde. Finalmente, o seu regresso a casa, ao amor, permite aceitar e lidar com as variações da sua identidade; ao não corresponder às tradições que considera ultrapassadas, especialmente no que se refere ao papel da mulher em Lagos, Ifemelu encontra a redenção, na medida em que aceita e convive com a sua própria identidade múltipla, sem ceder ao peso da tragédia, o que abre uma leitura à identidade nacional, sem impedir uma reactualização universal: “Eu sei que nós podíamos aceitar as coisas que não podemos ser um para o outro e até transformar tudo na tragédia poética das nossas vidas. Ou podíamos agir. Eu quero agir”, diz-lhe Obinze (Adichie 2014: 711). Para esta redenção, Ifemelu necessitou de sair de si, do lugar da raíz, para o reconhecer e para lhe acrescentar algo, as asas.

Nesta leitura pretendemos demonstrar de que forma a construção narrativa formal do discurso de HYS serve ao conteúdo, na medida em que a polifonia narrativa afiança o perigo da história única e clama pela diversidade de estórias e suas focalizações, instaurando um processo de separação da literatura colonialista enquanto reconhece o passado como inventor de futuros. Este recontactar com a origem, sem se comprazer com tradições ou posturas ultrapassadas, é, aliás, comum aos dois romances. Por outro lado, a asa: a deambulação corrompe a ideia de uma identidade fechada e a construção múltipla e evolucionista da mesma.

 

Comunicação apresentada no XXXVI Encontro da Associação Portuguesa de Estudos Anglo-Americanos (APEAA), UTAD, 27 de maio de 2015.

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