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As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

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Jaime Rocha, Escola de Náufragos – uma pedagogia desenganada da vida

01.09.19 | Cláudia Capela

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Théodore Géricault

 

 

Esta Escola de Náufragos, de Jaime Rocha, editado pela Relógio D'Água em 2016, abre com a descrição de quatro símbolos fortíssimos: a árvore, a casa, a criança e a água. Os axis mundi alencados, associados à constância rítmica marítima, perfazem a textura em que a criança se movimenta. "Futuro em potência", como lhe chamou Jung, o símbolo infantil forja aqui, em conjunto com a familiaridade da casa, a exterioridade da árvore na sua inteireza reunificadora de domínios antagónicos (vida/morte, consciente/inconsciente, terra/ar) e o elemento difuso aquático, um indubitável eixo de leitura que, com alguma facilidade, permitiria dar a ler o texto como uma novela de formação. De facto, a vida da criança sobre a qual recai a luz do holofote com imediato destaque ("É a visão do real que se reflete no pensamento de uma criança e indica, desde já, a sua presença neste texto" (Rocha 2016: 9) implica um esquema eidolo-motor cuja formalização transcende o signo e se associa aos arquétipos de Jung (similares aos fantasmas originais freudianos) enquanto engramas universais: uma espécie de consciência geral, coletiva, como refere Chevalier acerca dos protótipos inconscientes de Jung. Assim sendo, é a vida e a morte e a relação do náufrago em potência os objetos, enquanto tríade trágica, deste texto.

Trata-se aqui, portanto, de uma escola de naufrágio, na medida em que o tom essencialmente circular se veicula por meio de uma repetição natural quer do foro íntimo, familiar, quer do foro social, comunal, ou, ainda do eterno retorno natural, afeto, ao abrir, ao vegetal: "Não sei como as árvores conseguem manter-se no mesmo lugar de sempre, recebendo o mesmo vento e as mesmas tempestades" (Rocha 2016: 9). Só os pássaros são aptos à transcendência desse lugar de deserção do movimento, ao qual o indivíduo se submete como se inapto para a fuga ao destino. Ainda assim, talvez na matéria vegetal, onde eventualmente se possam vir a reconhecer traços humanos, se encontre um substrato afinal rebelde, afeto à imobilidade como princípio de permanência; como se a resistência, na novela em causa diretamente associada às gentes do mar, fosse, tanto como uma necessidade, uma questão de honra.

A nível formal, é assinalável o facto de a entidade narradora dar a ver, nos primeiros parágrafos, a sua mão intermitente, pelo uso da primeira pessoa, focando a personagem principal, Mateus, como quem deliberadamente busca uma memória embiocada pelo tempo, recordação que, atida ao fio, se desdobra posteriormente com maleabilidade. Depois, à medida que o rapazinho cresce, o mal torna-se mais evidente enquanto ato, imagem, ultrapassando as simbólicas descrições de teor abjeto, o que parece fazer rematar o uso da comparação.

A vila piscatória de onde Mateus, a criança fazendo-se adulto, é originário apresenta-se dual, senão indiferente, perversa, como se parisse para trucidar, prometendo, impiedosa, a imensidão do mar em troca dos sacrifícios da sua prole. Assim, é recorrente, nesta “Escola”, o mostruário contável de vítimas, seja diretas ou indiretas, subjugadas pelo efeito encantatório que o mar exerce sobre os aprendizes. No entanto, esta sedução não se reveste liminarmente de um efeito sirénico, mas circunstancial, do qual aqueles não parecem ter grande escapatória. No círculo decalcado que se renova a cada estação, a cada iniciação – e toda a narrativa se apresenta como uma sucessão dolorosa de rituais, dos quais se sublinham a relação Mateus/ família, Mateus/ escola-sociedade, Mateus/ lei (e ressalve-se a época ditatorial e a escrutinadíssima estrutura hierárquica piramidal), Mateus/ Maria Noé, Mateus/ Mateus, num processo violento de identificação por similitude e contraste; o eu/outro – repete-se fatalmente a atração pelo mal. A metáfora, ostensiva, tem um significado simples, a linha é tendencialmente curva, fecha-se sempre no ponto onde outrora principiou.

Se a morte é uma constante, o mar é, inteiramente, na inviolável expressão de um arrojo de vida, e contraditoriamente, o lugar de encerramento da mesma. Representa uma saída para a frente, cujo regresso raramente habilita senão uma evidência de falha e sofrimento. É esse mar a pesca, a luta, o desaire, a disputa e a destruição. Assim, a cama dos mortos será a única herança válida, expectável e certa, como se à nascença, à laia de Caim e do nosso Mateus, a mancha fosse, ainda que invisível, palpável na nossa fera humanidade.