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20
Nov17

A sedução do ambíguo

por Cláudia Capela Ferreira

A útltima obra de Sofia Coppola tem na ambiguidade a sua grande temática. Desde o título, The Beguiled, à postura das personagens e ao desenvolvimento das relações inusitadas entre homem e mulher - ou mulheres, neste caso -, encerra-se nesse processo do indefinido uma leitura pós-moderna, até porque o filme é uma paródia, na aceção desenvolvida por Linda Hutcheon, do trabalho de Don Siegel. De facto, The Beguiled dialoga com a primeira transposição fílmica do romance de Thomas P. Cullinan, na medida em que lhe responde, replicando uma perspetiva outra, a visão feminina das intervenientes. Não se entenda, por isso, que o filme é uma reprodução jocosa; é, antes, um revisionamento de um tecido fílmico, cuja distância permite a sinalização irónica da diferença. Se o filme de Siegel, de 1971 põe a tónica na natureza demoníaca do gineceu, o trabalho de Coppola depreende a ação das mulheres como uma resposta ao elemento masculino, sem, porém, encetar um movimento castrador como castigo.

Repare-se no título, The Beguiled, traduzido o verbo to beguile como encantar, seduzir, mas, e aqui reside a poética perversidade semântica, também, naturalmente, iludir e ludibriar. O seduzido? As iludidas? O ludibriado? Um soldado da União encontra o conforto do recobro numa escola para meninas na Virgínia, durante a trágica Guerra Civil Americana, de cujo desenrolar só sentimos a presença longínqua, mas não o bastante para nos olvidarmos dela. De facto, a própria casa é um reduto feminino alojado no coração da batalha, de onde se vê ou pressente, a cada passo, pelo monóculo das meninas, difusas movimentações e grossas nuvens toldadas de negro. Nesse sentido, há como que a extensão de uma dicotomia ou de uma divergência de fora para dentro, aquando da chegada do Corporal McBurney. De imediato se aferem os efeitos da estada de um homem, afeto ao exército inimigo, no seio da casa: as meninas, que tanto têm já de mulherzinhas, espelhando-se e simultaneamente afastando-se do exemplo de Miss Martha e de Edwina, rivalizam quanto à proximidade e atenção do intruso. Ciente disso, ele estabelece diferentes tipos de diálogo com cada uma, distendendo e adequando a sua narrativa de acordo com a personalidade e gostos das primeiras. Fala-se de aves e de flores, de rosas em carência, de sonhos, de música e, silenciosamente, de sexo. O Corporal pretende resistir à guerra, confiando na sua perserverança e sedução, mas elas compreendem-lha e agem em conformidade. Pelo menos, é essa a proposição percecionada pelo Corporal McBurney, acusando-as de o deformarem propositadamente, como um castigo.

Miss Martha, representada por Nicole Kidman, parece sorrir. A personagem move-se inteiramente nesse exíguo espaço do ambíguo, ora ofertando, ora retomando, como uma monja orientando as noviças. Edwina, pela mão de Kirsten Dunst, sempre imbatível, com aquele olhar que oculta enquanto revela, é a apaixonada contrita. Alicia, Elle Fanning, cuja representação poderia ser mais corpórea, oferece as vezes da jovem impetuosa e dissimulada, protegendo-se nessa simulação. As atitudes destas três personagens, tão diversas, implicam, também no seio da dinâmica feminina, uma leitura de confronto e ajustamento, evitando, desse modo, uma radical distinção entre a categoria, tradicionalmente oposta, mulher/ homem. De resto, e pela inclusão de mais três alunas, este lugar do feminino recorda o belíssimo The Virgin Suicides e a espessa repressão que faz das meninas vítimas sacrificiais. Os tons pastel e a incursão da natureza compõem a estética da realizadora, seduzindo-nos com os planos contemplativos, fixos, ofertando-nos o convite lascivo à reflexão pelo sensorial. Parece, pois, que Sofia Coppola, causticamente, por entre a maciez dos laços, contrapõe a ideia de perigosidade feminina ou, pelo menos, a estabelece como uma resposta à perigosidade masculina. A Miss Martha não se quesiona se a amputação, no ver delas, ou a mutilação, no ver dele, terá sido um castigo, aliás, ela parece ser, apesar dos seus desejos, honesta e decente. Mas a ambiguidade permanece, pois a acusação do Corporal não tarda. O elemento desestabilizador torna-se, então, o homem, a sua desonestidade na tentativa inglória de sabotar o espaço rigoroso e clean das meninas, não tanto pela sua presença, mas pela sua ação. Assim sendo, o próprio título, mistificado pela indecisão de quem é quem, traduz-se numa perspetiva pós-moderna no que reflete a tentativa de descontrução de valores culturais tradicionais relativos às oposições, às dicotomias. Afastando-se de uma leitura francamente misógina, estruturada na distinção do genéro segundo uma leitura moral e ética, em que masculino é sinónimo de bem e feminino de mal, o filme de Coppola atesta, antes, a perigosidade da comunicação, a ingerência da palavra e dos atos, nunca submetida a um ideal de género atrofiado na consolidação de papéis estanques, mas aberta à personalidade invicta de cada sujeito.

Há portanto, mais do que duas perspetivas, feminina e masculina, neste texto fílmico, e todas se opõem, daí a ambivalência. Qualquer história, percecionada por cada uma das personagens, segue a mundividência da mesma, é narrada segundo essa visão intrínseca, e não pela generalização. É por essa razão que quase se resiste a tomar a amputação como isso só - e até mais: a verdadeira salvação do soldado, que, enraivecido e tomado por uma alucinação narcísica, não a entende e a faz perigar, às mãos das meninas que, não mais postas em sossego, respondem e, da mesma maneira que salvam, derrotam - ou uma verdadeira castração, como o Corporal atesta.

O filme parece repetir-se, na medida em que as competências básicas exigidas às pupilas, coser, cozinhar, cuidar, são, depois, apropriadas num viés antónimo, servindo a exploração da ambiguidade como tema. Trata-se da significação e do reflorescimento que esta, gentil e ambivalentemente, nos oferece. Resta, ainda, salientar a divergência entre as virgens suicidas e estas meninas de Miss Martha, já que se escusam à voz narrativa masculina e são elas próprias que, na cena final, aguardam o seu destino. Não são mais os observadores platónicos do lado de fora das janelas das irmãs Lisbon a fechar o filme, mas as meninas, elas próprias, sob a proteção do seu espaço, ainda que esse limite que o portão constitui seja o inegável e ambíguo símbolo da resistência e da repressão.

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