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05
Dez16

As rosas de Laura, as flores de Lispector

por Cláudia Capela Ferreira

Ler Clarice Lispector é ritualizar, escrever Lispector é orar. A escritora pertence a uma classe de artistas automitificados, cuja atitude pode instaurar uma maldição, quer para o sujeito, quer para a sua literatura ou para a Literatura. Fazendo da arte um ritual, prende-se o artista  a essa teia autofágica, imerso em secreções poéticas que não mais pode negar. É como uma autofagia involuntária de que se tem prazer.

O livro Todos os Contos, já de março de 2016, publicado pela Relógio d'Água e com edição, introdução e notas de Benjamim Moser, deve ler-se com vagar, repetindo contos, dizendo orações em voz alta, mas não muito, em constantes movimentações para a frente e para trás, como se fosse uma dança e nunca um percurso a direito. Isso não existe em Lispector. Da mesma forma que se não pode deixar o livro simplesmente pousado sobre a mesa, voltado para cima, a fotografia da capa assaltando-nos.

Pertencendo à categoria "conto", os textos aí reunidos suplantam a prosa e aproximam-se do reino da poesia, da autorreferencialidade, do lugar do exótico, da dispersão, do subversivo, do eu em demanda. E talvez por essa razão, ler os contos de Clarice talvez seja um vislumbre de (tres)ler Clarice. Como se entre a matéria do corpo de uma e a intangibilidade dos outros nada houvesse.

Acompanhar os contos  é acompanhar a mão que escreve, ultrapassando as sinuosidades das barreiras teóricas de autor, narrador e das máscaras ficcionais. Benjamin Moser avisa-nos: "Esta obra é o registo da vida inteira de uma mulher, escrito ao longo da vida inteira de uma mulher." Mas desengane-se quem procurar nas palavras de Clarice a sua vida, a sua biografia; ela não está la, pois ela a subtrai e ultrapassa no caráter que as grandes obras evidenciam, o universal. O mesmo que Miguel Torga, outro autor automitificado, crente da Literatura, defendia.

Mas desçamos à terra. E falemos de mulheres. Se a autora foi privilegiada, as suas personagens nem sempre o são, o que revela uma sólida perceção da realidade social, abstraindo a autora de um suposto lugar-comum reservado aos grandes e eternos autores no que respeita os temas literários clássicos. Não só Clarice os abordou, como nunca se absteve de neles incluir impressões e preocupações ditas triviais, caseiras, da ordem da matéria. Enfim, podia falar em temas femininos, que o eram, nesse tempo e, porventura, ainda permanecem entendidos como tal, mas eu designá-los-ei domésticos, porque o cariz da sua feitura não depende de afiliações de género ou do sexo. Além disso, a maternidade, o casamento, a domesticidade nunca foram silenciados em Clarice. Na verdade, tidos como naturais, são incluídos com essa naturalidade no discurso, desprovendo-o de falsidade e superficialismo, impregnando-os de verosimilhança. Não há em Clarice o tom superior de intelectualidade, mas a noção efetiva das diversas realidades à espera de ação. Se encontramos o tom quimérico, encontramos a trivial e dura realidade de envenenar baratas, de arrumar a casa, de recusar o apelo dos filhos ou do marido. A sua palavra é sinuosa, desvelando a relação com o divino, as diversas aparições da vida, a perceção mínima, as epifanias. Há, de facto, momentos triunfais, anunciados não raras vezes pelo recurso aos deíticos, ou à adversativa, cuja fulgurância quase se serena na palavra calma, e nos quais se promove a veiculação de entendimento, de comunhão e conhecimento, como se as personagens nos acenassem com a possibilidade de visão clara mas incrível da vida feita revelação, colocando-se, elas mesmas, como um deítico no mundo. Neste processo de referenciação, o sujeito situa-se no mundo e em si próprio no espaço físico e mental ou espiritual, numa assunção da consciência da sua vinculação ao seu espaço, ao seu tempo, ao seu ser. Será, talvez, uma espécie de se saber sabendo, de se saber existindo, de se pôr em devir consigo mesmo e com o que o rodeia.

Seria prazeroso abordar todos os contos de Clarice, mas porque o tempo é sempre lamentavelmente parco para quem lê e se sente emotivamente ligado à palavra, religado ao mundo e convidado por alguns livros a pensar sobre eles e teorizá-los, proponho espreitar «A Imitação da Rosa».

O título, referenciada depois a obra A Imitação de Cristo, obra da literatura devocional, atribuída a Tomás de Kempis, escrita no século XV, dialoga com esta noção de imitação, de aparência e aproximação. Como tratado de moral cristã, a imitação de Cristo lista uma série de limitações associadas à boa conduta cristã, enquanto a imitação da rosa oferece, lascivamente, um mundo de possibilidades. Se o primeiro, associado à vida colegial de Laura, ensina a humildade e o desprezo por todas as vaidades do mundo, bem como a resistência ao desejo de se conhecer e a noção de nada da criatura, a submissão, o segundo tratado, a imitação da rosa ou o conto de Lispector, em última análise, metaforizado no ramalhete das flores de Laura, "miúdas rosas silvestres", ensinam-nos a tentação do autoconhecimento e de uma certa vaidade nisso. As rosas de Laura, aqui elogiadas quatro vezes seguidas, "como são lindas", representam a epifania de quem olha e vê ("E quando olhou-as, viu as rosas"), ainda que imersa num quotidiano banalizado, e numa submissão a regras compartimentadas, ausentada já a pessoa de si mesma, olvidada do eu que a habita. Olhar as rosas é aperceber-se de si. Em último caso, as flores de Laura, no que de epifânico significam, são uma tomada de consciência do que nos rodeia e de nós mesmos em relação a esse espaço e a esse tempo. Olhar as rosas é a tentação de perfetibilidade, a resistência ao apagamento, à hegemonia do igual, do supérfluo, do dizível fácil. As flores de Laura materializam, nesse momento mínimo de atenção, uma fuga à esterilidade da vida, à autossubmissão dessa sua pressa inconsciente.

As flores de Laura, como os versos ou as orações que lemos, permitem o reencontro connosco , momentos de descoberta do intangível e, muitas vezes, do inefável. Resta-nos a metáfora da flor, "desabrochada e serena".

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