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17
Jan18

Call me by your name, a nostalgia da descoberta

por Cláudia Capela Ferreira

Call me by your name

Luca Guadagnino

 

Este é um filme para nos apaixonarmos. Pela banda sonora, pela fotografia, pelo argumento, pela história. Conta-se dos primeiros amores de um adolescente à entrada da maioridade, de um verão quente algures no norte de Itália, onde, a par dos corpos desnudos, os frutos e a água compõem um conjunto lúbrico, cuja poeticidade nos cria desejo. Longe de se tratar apenas de fulgor estético, o corpo desnudo implica um lugar de descoberta e deslumbramento, e, embora se retrate o outro, essa descoberta radica inteiramente no eu; Call me by your name prova-o.

Elio cresce num ambiente privilegiado, mantendo uma relação intensa com a arte, nomeadamente a literatura e a música, embora, como o próprio venha a afirmar, há coisas que ainda desconheça. A descoberta do seu corpo, a curiosidade libidinosa são ruborizantes como os frutos desenhados sobre a tela. De facto, este não é um filme para a crítica, é um filme que se oferece inteiro à degustação, casta inicialmente, feroz, depois, como o doce fruto que se coma sem maneiras. Há, no roçagar dos corpos, e na água fresca um apelo poético: recorda, sem dúvida, os versos de Eugénio de Andrade, que tão delicada e punjantemente dedilhou o amor. E o filme é, precisamente, sobre o amor, o êxtase, o desejo, a delicadeza e a robustez do seu efeito.

Ainda estou para descobrir se a melancolia que retrata o filme é a projeção na tela do efeito do mesmo sobre nós; isto é, se a melancolia de Elio é a nossa melancolia, se o desejo de Elio é o nosso, se a ingenuidade de Elio é o martírio da perda da nossa. E repare-se, acabamos por repetir o nome de quem ama e se faz amar, fazendo tocar o 'l' no céu da boca, convite revelador do que aparenta ser o livro de André Aciman, recordando-me, pela importância do nome e da dicção do mesmo pela boca de quem o deseja, a abertura do romance de Nabokov. Amar o outro é, sem dúvida, amar-nos sem reservas.

 

 

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