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Há filmes sobre os quais escrevemos com grande desenvoltura, eles são o que são. E há filmes que nos levam uma noite a assimilar. Lady Bird, de Greta Gerwig, parece óbvio no seu despretensiosimo, aparente linearidade e esvaziamento, na castidade da descrição da juventude de Christine ("Call me Lady Bird!", insiste), mas talvez não seja; talvez não seja, se o deixarmos operar nos interstícios dos nossos quartos escuros. Focado numa finalista do secundário, a película acompanha a sua relação com a mãe, situando a ação em Sacramento, no início do milénio, 2001. Lady Bird pode bem ser a tal carta de amor de Greta Gerwig à sua Sacramento natal, considerando os traços autobiográficos do filme. Como diz a Irmã, no filme, a atenção é uma forma de devoto amor. De facto, Sacramento não é apenas a localização geográfica da narrativa fílmica, ela situa cada tema aí registado e, se dúvidas houvesse de que a cidade é a grande personagem de Gerwig, atendamos à citação de Joan Didion na abertura do filme: "Anybody who talks about California hedonism has never spent a Christmas in Sacramento", e aos relevantes travellings de mãe e filha atravessando a cidade, o rio, o sol em descenso.

Neste sentido, e porque o filme convoca de imediato a relação de amor e desapego, ou repulsa, entre mãe e filha, a renúncia e a melancolia pela casa é o que separa e une as duas personagens, deliciosamente representadas por Saoirse Ronan e Laurie Meltcalf. A referência a As Vinhas da Ira de Steinbeck não é inocente, indiciando a grande depressão económica americana e a expressão do seu decalque no fim dos anos noventa, bem como a migração das personagens do livro para a Califórnia. Lady Bird opera, ou pretende operar, no entanto, um distanciamento superior, ansiando pela east coast, lugar paradisíaco do sonho, da arte, da cultura, como refere de imediato, apresentando-se nessa inocente romantização da realidade. É que ela tem 17 anos, não esqueçamos. Os seus critérios serão válidos, a ingenuidade afeta à adolescência distende-se quando em diálogo com o realismo da mãe opressora. A questão identitária é fulgurante: "Call me Lady Bird!" é um apelo fortuito nesse sentido, de afastamento da mãe e do seu rigor na projeção das suas expetativas sobre a filha, e da própria cidade, naquilo que possa significar enquanto projeto de vida. Não é à toa que a realizadora, seguramente, evoca as figuras da mãe e da filha percorrendo caminhos semelhantes; há um medo inteiro por parte da filha em tornar-se naquilo que mais detesta na mãe; a figura da mãe é a repressão da sua identidade, criada por oposição à do modelo. Quanto mais a mãe transige, mais a filha se afasta.

Depois de Sacramento, ou paralelo a este, que não se destrinçam, esta conversa muda entre a mãe e a filha é o grande assunto do filme; a forma como se constrói uma identidade. Há um diálogo magistral e absolutamente doloroso, filmado contra um vestiário, na simplicidade do quotidiano, sem efeitos dramáticos excessivos, nem lágrimas, nem mesas derrubadas, assim mesmo, contido nas palavras, no azedume e no cinismo, entre vestidos e música ambiente, categorizando esse vínculo que ultrapassa a dura relação de uma adolescente com a figura de autoridade. A mãe começa por perguntar "Isn't it too pink?", ao que a filha, a certa altura, e consciente das constantes anotações passivo-agressivas da mãe, responde, "I wish that you liked me", "Of course that I love you." "But do you like me?", a mãe tergiversa, esganada pelo silêncio, esse punhal: "I want you to be the very best version of yourself that you could be.", "What if this is the best version?" E o silêncio impera, até porque a própia mãe foi criada por uma alcoólica abusiva. A dificuldade comunicativa dilacera-nos nos constantes atos falhos apostados nesse entabulamento, seja pelas cartas amassadas, pelos telefonemas desencontrados, pela mudez. A mãe ver-se-á, talvez, na própria filha, nos sonhos gastos e naïve que caíram como um embaraço nas suas vidas. O filme, podendo abarcar toda a dispersão adolescente, não se deixa estagnar nesta direção, acabando, provavelmente, por lhe retirar o protagonismo que merece.

E, no entanto, this so called Lady Bird há de compreender (ou aceitar, como forma de amenização) a mãe, e a mãe a filha, embora aquela chegue demasiado tarde, adivinhando uma eterna dessintonização: é que há ruas de sentido único e, às vezes, os outros estão no "wrong side of the tracks". Nem tudo pode ter um final feliz.

O ambiente social é diverso, o desemprego jovem e adulto bem pintados, a noção de esvaziamento de um qualquer sonho regista-se na atividade aparentemente supérflua de mãe e filha, visitando casas que nunca poderão comprar, casas que seriam a efetivação de uma suposta realização familiar. A casa, esse símbolo maior. Esta anulação verifica-se ainda na envergonhada relação estabelecida entre a adolescente e os colegas, da qual se destaca a melhor amiga, Jules, insegura, e com um fraquinho pelo professor de Matemática (quem nunca?), Danny, o primeiro namorado envolto em incertezas quanto à identidade sexual, Jenna, a projeção identitária de Lady Bird, realização cómoda do ambiente confortável em que vive e, por isso, perfeitamente integrada e conformada com o papel designado, para desilusão da nossa protagonista, e Kyle, desempenhado por Timothée Chalamet, muito bem no papel de burguês pseudo-intelectual cínico ("I smoke hand rolled cigarettes [...] There's fiberglass; I don't like money"), adivinhando outro ensaio identitário mal concretizado, finalmente redimido por Lady Bird quando assume, em contramão face aos representantes do objetivo da sua projeção imagética, querer ir ao baile e gostar da música que passa na rádio. 

Greta Gerwig faz um bom debute nas longas, e, embora o filme, por não saber renunciar a dizer tudo, seja disperso, será um bom laboratório para os próximos. A aparente simplicidade convoca-nos, confunde-nos e restringe-nos à consideração das nossas próprias exigências e expetativas. A experiência deve repetir-se, quer na visualização do filme, quer, naturalmente, no balanço da nossa atuação. 

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