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Segundo consta, o calcanhar de Aquiles é sinónimo de vulnerabilidade, lugar de desencanto ou perda. Porém, o que cabe de outro no mesmo nome? Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida, editado em outubro, é um périplo, o mapa de um itinerário possível na busca de uma casa, de um nome, de uma identidade. Se hoje, os mais otimistas veiculam a necessidade de afastamento da noção velha e pecaminosa de nacionalidade, daquilo que as paixões em nome dela prescindem, numa contemporaneidade a braços com as radicalizações, não se pode, como acima sugerimos, delegar para plano reformado o facto de o mesmo nome assumir personalidades divergentes. Aquiles é essa criança nascida num lugar em transição, acompanhada pelo pai Cartola a Portugal a fim de se submeter a uma intervenção médica que o poderá curar, e mantém-se irresolutamente presa ao seu calcanhar, corpo em negação que encerra a família em seu torno, ou, decorrente do parto, não ficasse a mãe acamada, e a irmã e as primas, depois do pai, presas a essa categoria de cuidadoras. Porém, é essa sua falha, não obstante a metáfora que poderá simbolizar enquanto retrato da doença e das submissões no seio familiar, num diálogo entre subjugado e dominador ‒ quem é quem, afinal? ‒ (e do que daí decorre em termos políticos também, além do jogo íntimo: as realizações por vir das gerações criadas na convulsão da soberania e disputa de poder), a possibilidade não de redenção, mas, ao menos, de individuação. Mas Aquiles há de percorrer um longo caminho até desinibir-se com esse debute de si, num arquipélago cada vez mais ausente da grande cidade de Lisboa, cidade de postal nunca encontrada, quer pelo pai, Cartola, rei sem coroa, quer pelo filho, quer pelos que os acompanham nessa incapacitada batalha pela vida. Animus solvendi porém; a dívida a si mesmos.

Se o primeiro livro da autora, embora nunca descartando o espaço público, se volta para o rigor emotivo do interior, este não se dá ao luxo de edificar os pilares; formalmente, as duas personagens reconstroem a casa ardida na periférica e precária Quinta do Paraíso, mas é uma simulação de que se trata, de um inebriamento breve, à margem, como Iuri, o rapazito elucidado da sua vulnerabilidade, da eterna posição de outro que os circundantes lhe atribuem. Este livro é o lugar público dos irrealizados, dos sobreviventes, das margens, desse in between inviabilizado, não há quentura no sonho porque este encontra-se constantemente à beira de desprestígio e desfabulação. A pobreza é lugar doloroso e nem sempre está na mão dos indivíduos alterá-la quando o contexto degenera os atos, inviabiliza a mão. Nesse sentido, é de solidão e mudez que a narrativa se constrói, de rostos de transeuntes distraídos, necessitados de reconhecimento da sua existência na impalpabilidade urbana. Este paraíso, mínimo, não deixa de ser o lugar do transitório e do irónico, do aditamento do destino continuadamente adiado, o que torna as cartas de Cartola e Glória, tão emotivas, a promessa falha de um futuro, como, aliás, Luanda, a braços com a sua identidade, período violento de disputa. O poder de erigir o amanhã também pode ser negligente.

Este impulso para o outro tem-se mostrado fundamental na escrita de Djaimilia PA, num regresso à noção de uma mestiçagem contemporânea dolorosa, evocando, neste segundo livro, o pequeno Iuri, contrito na sua lucidez de mulato, a quem a avó diz que "os pretos não vão lá nem com fatiotas" e que, ao aprender finalmente a escrever o nome próprio, e nessa ácida pontada da voz narrativa, se inviabiliza: "não conseguiu ler sozinho as palavras, mas eram bonitas" (2018: 202).

Portanto, se Esse cabelo apresenta o corpo como leitura de identidade em construção, também Luanda, Lisboa, Paraíso, firmando-o como lugar irresistivelmente afeto à história. Cartola conhece a teoria da identidade portuguesa, memoriza as ruas da sua capital, conhece-lhe a gramática, mas é recebido, se o chega a ser, com a frieza da sua anulação, pelo que Aquiles, nesse lugar de incerteza, sem apego ou , acaba voejando entre as corruptelas da pertença, o que o transforma num errante, como se pode comprovar pelas suas consecutivas deambulações pelas ruas indiferentes dessa capital estranhada. Por isso, o futuro e a felicidade são sempre amostra, quer aquando da visita de Justina e Neusa, a irmã e a sobrinha, quer na adoção oficiosa de Iuri pela família possível, viabilizada nos vínculos da amizade. Cartola, Pepe, Aquiles, Amândio, Iuri, e uma mãe acamada, sonhadora, prostrada pelos seus sonhos de menina, uma Luanda transitória. De facto, esta fratura maternal é evidente, talvez como mostra de dissolução, perda.

Desenganem-se, porém, a disforia desta narrativa não data de oitenta, que não faltam por aí Aquiles deambulando sem poiso ou à míngua. E, tanto como uma identidade atestada, procuram abrir assento existencial.

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