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As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

As Flores de Laura

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Cold War, 2018, Paweł Pawlikowski – Dois corações, quatro olhos, oh,oh, oh

15.03.19 | Cláudia Capela Ferreira

 

 

Pawlikowski já nos tinha ofertado poesia compacta em Ida, de 2013, placidamente resgatando a história europeia, situando a Polónia entre a II Grande Guerra e o desiderato comunista. Ida, a neófita, é-o inteiramente, como criança cega que desconhece as origens. O convento, enquanto lugar de recolhimento e pacificação, é igualmente o do vazio existencial, para onde aquela se remete, banindo dos seus propósitos “a life as usual”, que a vida, e a de Ida, a de uma geração europeia, não tem nada de banal. Nem sempre basta renomear para começar de novo.

Em Cold War, e o título não poderia ser mais evidente, Pawlikowski volta a dar-nos a sóbria melancolia da impotência, nunca abjurada de grande lucidez e dignidade, os lugares íntimos da história, musicando-a substancialmente (já em Ida, a melodia se faz sinapismo para o pleito). Assim, brevemente: um músico recolhe o repertório de canções tradicionais polacas, uma cantora sobrevive. Estão já em rota de colisão com a Mazurek de permeio. Também eles em constante hostilidade: ela, à força do seu orgulho, ele, à custa dele, vão mantendo o seu amor ao longo de uma era cujos efeitos, enfim, enformam o gesto e lhes castra a oxigenação. A história de amor, que o é, não releva a paixão identitária, nem a contínua laceração e colagem da nacionalidade, que se faz mais nobre quanto mais humilhada (seja dentro ou fora de portas e esta é, parece-me, pedra de toque na poética do realizador).

Zula, brilhantemente interpretada por Joanna Kulig (já cantava em Ida), pragmática e raposina, e Wiktor (Tomasz Kot), o emudecido idealista, movimentam-se languidamente, imiscuindo-se na tela a duas cores, numa tessitura acetinada, que, em enquadramentos serenos, questionam despojados a excessividade da paixão e as sinuosas vielas. Entre os planos largos e resumidos, o todo e o individual, a pretensão da liberdade e do amor, da identidade e da nacionalidade, do livre-arbítrio e dos condicionamentos sociais, a longa (mas não muito, nuns perfeitos 90 min) não deixa, assim, de ser um estudo estético, nas ambivalências com que a melodia essencial (Dwa serduszka /Dois corações) é depois declinada ao longo do filme. A dualidade percorre e ausenta-se da esfera eu-tu e implica um duplo do eu, não apenas o do aposto a si). Esta noção de liberdade e encarceramento percorre o filme, seja por via formal, seja semiótica, demonstrando como a noção de fronteira se encontra além dos procedimentos burocráticos, realizações físicas e até preciosismos ideológicos. A identidade não é estanque, nem o adjetivo ou a celeridade de enfatuamento de personagem. A veste de heroína/herói e vilã/vilão é completamente renegada.

Fazendo jus aos ensinamentos musicais, as notas silenciadas são de efetiva relevância e o par funciona efetivamente como uma melodia: apaixonada, trágica, belíssima, uma ode ao amor e sobretudo ao desejo, também autofágico, essencial ao outro, até assomar todas as consequências.