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As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

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Da utopia mínima de Yeong-hye e da sua discípula

22.02.17 | Cláudia Capela Ferreira

Gosto de pensar que In-hye se torna, afinal, vegetariana. 

O termo vegetariana, no livro com o mesmo título, publicado em Portugal no final do ano transato, A Vegetariana, de Han Kang (com tradução do inglês de Maria do Carmo Figueira e edição da Dom Quixote), escritora sul-coreana, inclui uma miscelânea de potencialidades, não se particularizando, de todo, na primeira aceção, na visibilidade imediata da palavra. De facto, funciona aqui como um signo, ou um símbolo de enorme pertinência, abrindo em leque para as noções de inconformismo, rebeldia, liberdade, dialogando claramente com a irreprimível violência da natureza humana e a possibilidade de redenção ou inocência.

Mas mastiguemos, calmamente: a obra é tripartida, cada narrativa é situada no enquadramento que mais interessa ao narrador e à viabilização da história de Yeong-hye, contada inicialmente sob a perspetiva direta do seu marido misógino, depois, pelo acompanhamento do cunhado da primeira e, finalmente, em "Árvores Flamejantes", pelos passos de sua irmã, In-hye. Ora, se Yeong-hye se torna, pelo seu silêncio e presença constante, a protagonista deste romance, cujas pontes são tão rendilhadas que valeriam por si só, mais pobres, certamente, In-hye não é, de todo, apenas mais uma personagem secundária. De facto, apagada até ao último texto, é ela quem brota com grande vitalidade narrativa, constituindo uma continuidade feminina inteira nesta obra. O texto privilegia, sem dúvida, um posicionamento pós-moderno, inferindo das possibilidades várias das personagens, sublinhando as múltiplas perspetivas. In-hye é, pois, toda uma história, como Yeong-hye, ou, até, o Sr. Chang, ou o cunhado. Imersa numa vida que afinal percebe não ter vivido, surge aqui como contraponto e eventualmente discípula de Yeong-hye, como a única personagem com a possibilidade de salvação e criação da tal utopia impossível à irmã mais nova, a vegetariana. Numa longa digressão sobre o seu passado e a possibilidade de futuro, tendo em conta os atos presentes, In-hye reflete, convidada pela noção de si, da eventualidade de conhecimento do outro em si, numa leitura de alteridade radical lacaniana: a partir do lugar do outro (em mim, no meu desconhecido, no meu inconsciente), torno-me sujeito. Esta obra convida-nos, portanto, a uma rude mas poética absorção de nós próprios, de compreeensão das nossas ações, da visibilidade da nossa inteireza, dos nossos lapsos, dos nossos sonhos mais imperscrutáveis. 

Por sua vez, a protagonista, dá início a essa utopia pessoal, mínima, no momento em que declara "Tive um sonho.", fazendo ressoar o social, imbricando-o fortemente nessa sua opção pessoal por um regime alimentar consciente. O vegetarianismo, aqui, é completo e efetiva uma posição de eticidade e moral, relacionando a violência sofrida pela mulher e pelo animal, num diálogo inexistente mas provável com os estudos de Peter Singer e as noções de especismo e igual consideração de interesses. O apelo ao pensamento utopista recai sobre os atos de Yeong-hye, a mulher-árvore, a que faz da sua preferência um ato quase político na negação da violência, da crueldade, perpetrados pelo homem, ou pela sociedade em geral, imersa num tradicionalismo conivente com a violência doméstica, a violência sexual, a violência sobre o animal, a imposição de vontades contrárias às do indivíduo. Yeong-hye pergunta-nos, afinal: o que é o humano? 

Esta pergunta é crucial para a construção da nossa identidade e para a perceção dos limites da mesma. A reatualização da identidade pessoal movimenta-se simultaneamente com a noção de humano e sociedade, assegurando, por essa via, a possibilidade de rejeição de utopias ultrapassadas e a criação de realidades novas, de avanços cada vez mais perfetíveis. Yeong-hye, sendo constantemente interditada na sua identidade, vê-se coagida a deixar o seu lugar na sociedade humana, por manifestação da sua aparente insuficiência junto dos vetores consagrados pela mesma, facto grave e demonstrativo da relevância das vozes marginais para a consecução da vida de cada um. Neste contexto, a vegetariana é, então, um manifesto a favor da reabiltação do humano, contra a violência, seja de género, racial, étnica, ou de classe. É um manifesto contra e a favor da humanidade. 

Assim, gosto de pensar que reside em In-hye a possibilidade de ser inteira, a viabilidade da sua identidade, a liberdade de ser o seu verdadeiro eu. Por mim, ela que seja vegetariana.