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As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

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Diamantino e o triunfo do divergente

30.03.19 | Cláudia Capela Ferreira

 

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imagem retirada do site Film Festival Cologne 

 

Se quisermos, um dia, olhar para Portugal nos idos das primeiras duas décadas do século XXI, talvez tenhamos de dedicar 96 minutos ao filme de Gabriel Abrantes & Daniel Schmidt, Diamantino. Esta paródia de traços angulares espelha concretamente a estridente contemporaneidade, ataviada com as estrelas incensadas pelas massas, ícones de prestígio mais ou menos fugaz e verdadeiros case study da militância hodierna do marketing. Esse exercício de aproximação em picado não resiste naturalmente à dispersão ao ocidente, pelo que o que aqui se lê de sátira ao Portugal de hoje é, inevitavelmente, um espelho generalista.

Diamantino Matamouros é o super génio da bola que vende roupa interior e perfumes. Gerida a imagem e a fortuna pela mão de familiares, a estrela cai em desgraça quando se lhe vê negado o golo salvífico pela seleção portuguesa de futebol na disputa da final de um campeonato mundial. O amor a estes astros depende sempre dos humores nacionalistas, e o génio, inviabilizado na sua busca do sublime - aqui, a genialidade é comparada por Diamantino, afeto às palavras sabedoras de seu pai, ao que de espiritual ou, pelo menos, de ritual tingido de religioso, ressume da atividade desportiva (confesso que me recordo de Riefenstahl filmando os corpos atléticos em poses semidivinas, copiando as duas estátuas em frente ao estádio olímpico de Berlim em 1936), - acaba ridicularizado nas redes sociais. Realista? Muito. Mas não se julgue, porém, que o filme não galga as margens e não sobe pelo surreal até este ser, mais do que uma caricatura ou flanar do inconsciente, uma metáfora sintomática de temas muito mais abrangentes e criteriosos. Não se trata apenas do ego das estrelas futebolísticas, da sua ingenuidade e ignorância e do apajar de que se tornam alvo; trata-se da inconsistência de um real constituído pela imagem e pelo que de inusitado e fétido se desenrola sob os nossos olhos sem que nos dignemos à sua resolução. Assim, o filme abre em leque para múltiplas temáticas, o que, ao contrário do intuído, em vez de o esgotarem, o enriquecem, incentivando a metáfora da clonagem de super guerreiros apostados em resgatar uma nação da famigerada obnubilação, tornando objeto de raiva o outro, num decalque de outrora. De facto, a apropriação paródica de mitos fundacionais serve aqui o mote de crítica risível aos ambicionados muros e muralhas geográficas e sobretudo ético-morais, à desagregação do projeto europeu, ao nacionalismo xenófobo e ardentemente mítico - fascismo em construção -, à crise dos refugiados, bem como às ferocíssimas diferenças económicas, ao enriquecimento ilícito e à exploração máxima da imagem e da dor/ ridicularização alheias pelos meios de comunicação social.

A longa, instaurando momentos de um kitsch satírico, viabilizada pela inclusão de cachorrinhos felpudos, algodão-doce, waffles com nutela e Um bongos, obriga à perceção da frivolidade mas também imaturidade deste herói celeste facilmente manobrável; e o que a personagem tem de mau poderá ter de bom, nessa inusitada brancura mental, lugar do ainda não inscrito; enfim, do não estereotipado. Assim, todos os clichés genológicos e pastiches interagem no filme como modelo agregador da comédia, assumindo aquele rigores gore na metáfora extraordinária do porco perdido no labirinto e respetiva desmancha.

Mas o que coroa o filme, além do argumento, da atuação de Carloto Cotta, sempre irrepreensível na sua filmografia - e é preciso ressalvar que o filme lhe deve muito enquanto narrador, preciosismo que a tradução infelizmente abafa - e das manas Anabela e Margarida Moreira, numa representação admirável, é a chave d'ouro com que fecha, sugerida já desde que pomos os olhos no nome do iate de Diamantino, Andros, questionando-lhe o significado ulterior.

Se não queríamos o filme tão naïf na prossecução de um meloso envolvimento amoroso - mas quem nunca, quem? -, a distopia, pelo menos pessoal das personagens, é resolvida, instaurando para isso uma incursão, corporalmente metaforizada, pelo hibridismo, na sugestão da androginia e ainda da bissexualidade enquanto princípios integradores e inclusivos num mundo de tão efusivos e felizes contrastes. Esse estado ontológico reservado aos deuses, mito tão caro pelo sentido de projeção de perfetibilidade desde Ovídio, e presente já na mitologia dos politeísmos antigos, permite a realização dos amantes que, no caso, ultrapassa em grande medida o carácter íntimo e se projeta num sentido alargado de reposicionamento dos sentidos homogeneizados. A contestação das identidades fixas, se enveredarmos pela forma ampla da noção de queer, serve aqui um prognóstico de ratificação do bizarro, da incapacidade de comunicação e perceção dos outros, esses sim violentos na expropriação da identidade.

A apresentação foi clara: este é, talvez, o filme mais louco do Festival; louco é, e merece todos os créditos.

 

Film Festival Cologne

originalmente publicado em Portugal Post, ed.  outubro 2018