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23
Fev18

Do mal de família

por Cláudia Capela Ferreira

 

Do mal de família

 

 

Há três filmes de 2016 e 2017 que, por animosidade do tempo para com a mão que escreve, não foram ainda mencionados neste blogue. Indecente? Por supuesto. Trata-se de Toni Erdmann, de Maren Ade, Juste La Fin du Monde, de Xavier Dolan, e Happy End, de Michael Haneke.

Os três abordam as famigeradas relações familiares da modernidade (terá havido algum tempo em que elas não tenham sido adstringentes?), a difícil arte do diálogo, a incomunicabilidade, a distância física e a outra, aquela que, de alguma forma, todos estes tecidos fílmicos comentam. Se Toni Erdmann indicia um nutrido sentido de possível redenção, Happy End resvala para o cinismo perverso, concluindo da inviabilidade dos laços não só a nível familiar, mas no que ele, enquanto célula mínima da sociedade, representa de uma malha mais alargada. Para isso, Haneke dispõe, na tela, além da história da família burguesa em crise, o drama dos refugiados em Calais, essa demonstração do estado selvático da humanidade, imersa em burocracia e conflito, resistentes a qualquer indício de comunicação efetiva. O filme abre com uma pequena desgraça como um mise en abyme, dialogando, depois, com a indiferença e a noção de superioridade da burguesia europeia/ocidental apesar dos discursos pejados de lugares comuns-humanitários. Com a prestação estupenda de Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Frank Rogowski (que dá vida a uma das cenas mais cómicas e desesperantes do filme) e a expressiva Fantine Harduin (nascida em 2005), espelha-se, em diversos ecrãs, o egoísmo, a solidão, e, como tema sempre adjacente, a morte.

Toni Erdmann conta, ao contrário de Happy End, um drama; em Haneke tudo é trágico, resvalando para a comédia ácida do realizador: um hamster em que se ensaia um suicídio (?), uma criança em pânico silenciado, relações extraconjugais curiosas e um velho em estado depressivo, para o qual, aliás, todos se encaminham - como se nada além disso fosse possível, talvez o cinismo, - procurando um fim antecipado como cura para o estíptico ambiente a que aquele se restringe. A relação familiar filmada por Maren Ada limita-se ao pai, extraordinariamente representado por Peter Simonischek, e à filha, a também excelente Sandra Hüller; ele, solitário e disposto a fazer uso da sua veia cómica para retomar nos braços a criança que lhe parece perdida, após a morte do fiel amigo cão, logo no início do filme, sinalizando talvez a proximidade da sua (o egoísmo sempre foi um grande propulsor), ela, imersa na vida profissional e nas imprevisíveis hipocrisias daí decorrentes. A globalização e a grande rede de relações da sociedade contemporânea tão facilmente substituíveis são provocantemente abordadas, quer pela facilidade nos despedimentos, a nível profissional, quer no trato social (nunca a exigência de duas sanduíches e champanhe significou tanto), quer, intimamente, nas relações fugazes. O riso surge, então, nervoso, prestes a rebentar em choro, dos momentos mais intensos e dramáticos, da consciência de um irresolúvel desespero. O surrealismo que o aplaca, porém, convida à catarse e à ação; para Ada, nem tudo estará perdido se houver lugar à lucidez de reconhecer a falha. O riso - proposto das formas mais desconfortáveis, recorrendo à nudez, exercício bastante metafórico do excessivo e acessório do mundo moderno, podando o diálogo, a intimidade, a essencialidade - parece o filme sussurrar-nos, sustenta o indivíduo, identifica-o, devolve-lhe o carácter humano. Por outro lado, a cena em causa evidencia a incapacidade de perverter o ridículo depois de acionado: a reação em cadeia cerceia qualquer forma de lucidez, aprisionando os indivíduos emocionalmente, vendo-se obrigados a despir-se de qualquer tipo de argumentação moral ou ética. É o momento de liberdade que Ines, a filha, anseia, ainda que obrigada pelas circunstâncias.

Ao contrário dos anteriores, Juste La Fin du Monde é mais íntimo, ainda que não descure a paisagem social. Ainda assim, dos três, é o que faz convergir e adentrar sem pejo o escalar dramático para baixo e para dentro, estertor que se sente inclusivamente de forma física: Dolan recorre à figuração da casa onde decorre a ação obssessiva e compactamente, empurrando, contraindo, bem como à impressão do calor doentio em crescendo, ao suor das personagens, para nos convidar ao desconforto azedo do reencontro. O efeito é intencionalmente abafador, claustrofóbico, demonstrativo da relação mal-acabada dessa família. O filho mais ou menos pródigo, ou Abel, será?, um escritor, regressa, embora não regresse por muito tempo, o segredo mantém-se, não há lugar à cicatrização, antes, à compressão da ferida. O desempenho de Gaspard Ulliel é devastador; a personagem de Marion Cotillard é pesarosamente bela, Nathalie Baye e Vicent Cassel, segurísismos, Léa Seydoux, efetiva; a fotografia é belíssima, embora o filme se demore numa certa emoção ingénua ou contemplação da dor que pode, para alguns, resvalar para o nada. É preciso ter calma para a violência. Partindo de uma peça de Jean-Luc Lagarce, esta recriação - e note-se, trata-se de uma recriação e nunca de uma simples projeção da primeira, é um diálogo estabelecido entre ambas que aqui não me interessa situar, nem deve nunca sê-lo, a não ser quando, lucidamente, observado como um ato de saudável intertextualidade – parece comprazer-se, maceradamente, na demora do tratamento da incapacidade efetiva de comunicar a verdade, conquanto se fale e grite e acuse e oprima. O close up não é excessivo se significar essa incapacidade de nos colocarmos na pele dos demais, reféns da nossa egoísta perspetiva, impossibilitanto um qualquer sentido geral de verdade: o que pode haver é, antes, um ramalhete delas, segundo o prisma de cada olhar. Dolan não quis filmar os atos dramáticos, a ação, mas a desolação, o efeito daquela nas personagens, não é uma história, mas o resultado dela nas personagens; a opressão de uma casa em sinal contrário à significação vulgar na sua vertente totalizante de conforto e apego.

Podia ter começado o texto com uma citação de Lev Tolstoi, "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira", mas ainda vou a tempo de a incluir, parece-me, no convite às três grandes obras acima propostas, já que, de saudade ou rancor, "Home is where it hurts" (BS Juste la fin du monde, Camille).

 

 

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