Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Se quisermos, um dia, olhar para Portugal nos idos das primeiras duas décadas do século XXI, talvez tenhamos de dedicar 96 minutos ao filme de Gabriel Abrantes & Daniel Schmidt, Diamantino. Esta paródia de traços angulares espelha concretamente a estridente contemporaneidade, ataviada com as estrelas incensadas pelas massas, ícones de prestígio mais ou menos fugaz e verdadeiros case study da militância hodierna do marketing. Esse exercício de aproximação em picado não resiste naturalmente à dispersão ao ocidente, pelo que o que aqui se lê de sátira ao Portugal de hoje é, inevitavelmente, um espelho generalista.

Diamantino Matamouros é o super génio da bola que vende roupa interior e perfumes. Gerida a imagem e a fortuna pela mão de familiares, a estrela cai em desgraça quando se lhe vê negado o golo salvífico pela seleção portuguesa de futebol na disputa da final de um campeonato mundial. O amor a estes astros depende sempre dos humores nacionalistas, e o génio, inviabilizado na sua busca do sublime - aqui, a genialidade é comparada por Diamantino, afeto às palavras sabedoras de seu pai, ao que de espiritual ou, pelo menos, de ritual tingido de religioso, ressume da atividade desportiva (confesso que me recordo de Riefenstahl filmando os corpos atléticos em poses semidivinas, copiando as duas estátuas em frente ao estádio olímpico de Berlim em 1936), - acaba ridicularizado nas redes sociais. Realista? Muito. Mas não se julgue, porém, que o filme não galga as margens e não sobe pelo surreal até este ser, mais do que uma caricatura ou flanar do inconsciente, uma metáfora sintomática de temas muito mais abrangentes e criteriosos. Não se trata apenas do ego das estrelas futebolísticas, da sua ingenuidade e ignorância e do apajar de que se tornam alvo; trata-se da inconsistência de um real constituído pela imagem e pelo que de inusitado e fétido se desenrola sob os nossos olhos sem que nos dignemos à sua resolução. Assim, o filme abre em leque para múltiplas temáticas, o que, ao contrário do intuído, em vez de o esgotarem, o enriquecem, incentivando a metáfora da clonagem de super guerreiros apostados em resgatar uma nação da famigerada obnubilação, tornando objeto de raiva o outro, num decalque de outrora. De facto, a apropriação paródica de mitos fundacionais serve aqui o mote de crítica risível aos ambicionados muros e muralhas geográficas e sobretudo ético-morais, à desagregação do projeto europeu, ao nacionalismo xenófobo e ardentemente mítico - fascismo em construção -, à crise dos refugiados, bem como às ferocíssimas diferenças económicas, ao enriquecimento ilícito e à exploração máxima da imagem e da dor/ ridicularização alheias pelos meios de comunicação social. [...]

Publicado originalmente em Portugal Post, edição de novembro de 2018

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Arquivo

  1. 2018
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2017
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2016
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ