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Trudno byt Bogom (Hard to Be a God), Aleksei German, 2013. Tudo é lama, sangue e esterco, escorrendo continuamente. Don Rumata, o suposto filho de um Deus, asperge-se, perfuma-se, lava-se, numa operação reiterada de purificação, quase até ao fim, quando acaba, finalmente, descansando os pés numa poça barrenta. Um Deus também duvida, um Deus também se reconhece coatado. O espaço é exíguo, labiríntico, pantanoso, abundante em matéria fecal, ossos, gordura, carcaças pendendo do teto, enovelando os movimentos, tolhendo diálogos, e chove; o caos é essa imundice líquida, saturada pelas constantes onomatopeias escatológicas e sexuais, acompanhadas pelos gestos claudicantes de criaturas saídas da pintura mais demente de um Bruegel + Bosch, ora escanzelados, ora obesos, feios todos, angulares e dementes, num desfile errático de desvario, grotesco. Não se trata, porém, de caricatura, pelo que não há o tom trocista do excesso de circunstância, ou de absurdo de contexto - de um Kusturica, por exemplo. Em Hard to be a God estamos no plano azedo do documental. Passo a explicar: a deambulação da câmara, do olho observador, convoca-nos diretamente para esse espaço, como se fizésssemos parte dele; não subsiste a tenuidade da tela entre nós e o observado, não se trata de uma ficção de que possamos lavar as mãos no fim. Por garantia desse terrível eterno retorno de que Don Rumata há de lamentar-se (Que conselho darias a Deus, questiona, ao que lhe é respondido "Castiga a crueldade para que os fortes não sejam cruéis" , e ele retorna, disfórico, "Quando forem punidos, os mais fortes dos fracos tomarão o seu lugar"), também nós somos arrastados nessa lama, pisamos excrementos, lavamos as mãos com merda, ato repetido, com prazer quase orgástico, em gestos infantis. De facto, é de uma infância que trata este filme, de uma fase escatológica de (uma qualquer, qual?) humanidade. Para nós, ou não fossem os olhares cônscios das criaturas demonizadas da obra de Aleksei German diretamente para a câmara, isto é, para nós, em interação constante, também o Renascimento não se deu. Por outro lado, sabemos que Don Rumata é um cientista visitante nesse mundo medieval, Arkanar, encapotado na personagem deificada, ao qual, como um mero observador ou câmara de um documentário, é barrada qualquer influência no rumo do real.

Não adianta querer seguir o diálogo, as falas assemelham-se a nonsense, cuja produtividade decorre desse estranhamento da linguagem, ainda que as figuras nos foquem os olhos tão demoradamente, curiosas, como quem aguarda réplica. A obra de German, terminada pelo filho, baseia-se num romance de Arkady e Boris Strugatsky, e, apesar da imundice constante, os planos são belos - especialmente no fim, quando a paisagem gela e já neva, amenizando o esgoto - como um manifesto defensor da possibilidade de, apesar dela, da imundice, ou da vida, se resgatar um cruel sentido estético enquanto prefigurador de uma reconstrução possível, sentido este depurado, sem dúvida, pelo facto de a longa ser a preto e branco. Desenhar from scratch ( "I am not interested in anything but the possibility of building a world, an entire civilization from scratch.”), parece que disse German.

A disputa sangrenta do poder entre duas fações, religiosa e secular, a perseguição do pensamento, a escravatura, a superstição, a impunidade dos fortes, a irrelevância dos fracos, e o mal-estar de todos face aos inventores, à música, à arte, como coisa que - a criança no fecho da obra o dirá, como estertor da despedida - magoa o estômago. Portanto, aquilo que o filme documenta, num aparente planeta longínquo situado no eterno e disfórico, distópico, pandemónio bexigoso da Idade Média, é o espaço adiado do revolucionário renascimento, sucessivamente declinado pelas vagas de submissão repetida de uma função e pulsão dominadora, crestando sempre a sensibilidade artística, a perceção não só sensorial, mas intelectualizada do mundo, de que resta, enfim, entranhas, sangue, merda. Outra vez. E, se um dia, viesse um visitante? 

Don Rumata não deixa de, enquanto figura ambígua, no papel de Deus, um deus estudioso, observador, questionar o seu lugar de mero recetor da História, e fá-lo saber, andrajoso, meio nu, sentado na água pútrida que tanto se esforçara, a par da mortandade ( "Deus, detem-me") por evitar: "Um Deus também se pode cansar. [...] Quero dormir, sai. [...] Dizes que escreves livros, mas não tens ideias. Olha esta. Quando [a fação dos] Cinzas triunfa, [a fação dos] os Negros aparecem sempre no final. [...] Se escreveres sobre mim, terás de escrever isto: É difícil ser deus." E no que se lê de apaziguamento na figura nervosa do sábio, na sua impotência de, estranhando o mundo, nele influir, também uma crítica a esse confortável lugar de Deus, na sua pretensa condescendência, passibilidade face ao livre-arbítrio. 

O filme é moroso, adia-se, e exige compromisso, pois só ele permite o proveito de tão extraordinário retrato, em que nada foi deixado ao acaso. A repulsa pode ser um confortável lugar de início. 

 

 

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