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As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

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L’ amant d’un jour, 2017, Philippe Garrel – O mal d’ amor

15.03.19 | Cláudia Capela Ferreira

 

Garrel tem um problema com a fidelidade. Não a percebe, e tende a juntar duas a três personagens que, dialogantes, em quartos mais ou menos estanques, sob condições de cárcere – que é, talvez, o que lhe parece a palavra da qual decorre a sua obra, mais, talvez do que de amor e família, esses compósitos sociais a que resolveu dedicar-se em contemplativo estudo – até que digladiem as suas perspetivas. Se, em Jalousie questiona se, semanticamente, as palavras variam de acordo com o género, também em L’amant, além do género, implica a idade. Por outro lado, e embora o pouco génio do dull professor de filosofia nos arrefeça (podemos ler nele uma pretensão misógina, do pobre que sempre se submete ingenuamente, ou daquele que bem vistas as coisas, se percebe já vencido e ultrapassado), neste filme não se trata simplesmente a fidelidade entre casais, mas, novamente, dos laços sanguíneos. No caso, não deixa de ser visível a manipulação decorrente do ciúme da filha (interpretada pela… filha de Garrel), sob princípios muito lacanianos. A mãe está de todo afastada, ainda assim, e enquanto o pai se bate com a sua idade, a masculinidade e o sofrimento de se ver vítima daquilo a que chama o don juanismo (e chega a confessar que sofrera do mesmo mal) de Ariane, a aluna (não se ultrapasse este pormenor batailliano), parece não compreender-se enquanto motivo devoto da filha e subsequente razão da sua (in)consciente resposta.

Garrel situa-nos assim nesse insosso nível da desilusão, da disforia total, já que, mais cedo ou mais tarde, todos acabam por ferir-se e nada nos diz que o facto de o poder ser inadvertidamente não seja bem mais doloroso, dada a deslembrança do suposto objeto de amor.

Ariane encontra-se num lugar de experimentação, de liberdade sexual, enquanto Jeanne pugna pelo ideal romântico. Porém, essa sua, chamemos-lhe máscara, é dissímulo de uma Jeanne interior em polvorosa, mimada e, talvez, abnegada, pelo que, no fim, não é estranho que Ariane se anule a favor de uma Jeanne rodeada pelos homens da sua vida. Desta forma, Garrel, de forma assaz inteligente e subtilíssima – ou então a psicanálise há de ser fértil – decompõe a noção atada a Ariane como femme fatale e fá-la convergir para a inocência tímida de Jeanne, sem condescendência, e até com ingénuos laivos de desejo. Não se escapa ao voyeurismo do sexo, do orgasmo feminino, e se não chega a repudiar Ariane, perspetiva-a como se de um grande mistério se tratasse, especialmente o seu prazer, recorrendo amiúde à promiscuidade e ao adultério como sacrifício, cilício ou auto-indulgência. Esta ambiguidade de quem deseja quem e de quem seduz quem é fundamental para a manutenção do filme que, de outra forma, seria peça simplória de diálogo de perspetiva sobre o amor. Parece-me que lá em casa, para alguns cinéfilos se obliterou esta possibilidade, quem sabe grandemente estimulados pela genialidade de Jeanne, a santa, e se debruçaram à janela a laminar o amor e o que choram as mulheres sobre a ausência do homens.