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01
Out18

La (petite) mort de Zana

por Cláudia Capela Ferreira

A escrita em A Noite e o Riso, de Nuno Bragança, é um desejo fundacional, como o dos corpos dos amantes em rotação recíproca, lugar do conhecimento. Bildungsroman, o texto de NB anuncia o crescimento por via do amor e da sujeição do corpo a essa transcendência, "És tu, és tu, és tu". 

A certa altura, Zana confessa: "Descobri que a única coisa que me interessa a fundo é escrever, o resto é vivido por causa disso. Ou seja, tudo o que me interessa a fundo é viver, o resto vai ser escrito por causa disso." Muito llansolianamente, Zana embarca nesta duplicidade concupiscente da relação da ficção com a vida, decalcando o ato físico do amor, numa atitude de restauração de si enquanto personagem e autora do tecido ficcional/vivencial. E se Zana não escreve o livro e o esquissa, "o homem" há de ele escrevê-lo depois de se ver vedado da voz feminina, senão por meio da carta que aquela lhe deixa, meia a rir-se, descrente do que escreve, caso morra. É meia voz; meia muda, meia surda - e tantas Casas Pardas, Missas e Mainas já a caminho - embate do íntimo com o seu tempo, com a restrição sociopolítica. A mulher não escreve, ainda que oriente essa escrita, tendo, inclusivamente queimado as obras completas de Camilo Castelo Branco, amén, numa atitude de reverência e continuidade: ir ao fundo e emergir ("saber mergulhar na tradição e logo de seguida regressar à superfície, vivo"), a apneia sorridente ascendendo sobre a face do russo Karamazov.

E é, entre outras várias, por esta razão que a noite e o riso são fundacionais, no atributo de desafio do precário e absurdo, e simultânea busca de absoluto mais ou menos romântico e surreal(ista). O ensaísmo ficcional, a poesia, a vida feita palavra sobre a qual é "necessário saltar-lhe em cima; mas rapidamente, como um gato novo desmancha a ossatura dum pardal." É forma bela de dizer a nova literatura. 

Zana percebeu que a origem da sua embirração não eram as mulheres, antes o ser mulher resignada nesse contexto de subdesenvolvimento, e é nesta repressão do oficial que Zana brilha inteira, na paródia da fidelidade, citando Stendhal, dando-lhe uma profundidade mística. "Tão profundo é o contrato" viria a dizer Maria Velho da Costa, citando Régio, sobre Sara e Simão, dialogantes com Zana. Da mesma forma que Luísa Estrela sofre - sociais e morais - as consequências da diferença sexual, também Zana as sofre com ela. Sublinhe-se, ainda, que Zana escreve ou quer escrever. Isso há de fazer pensar. E, como para Zana a vida, como a ficção, está horizontalmente ligada, o ato amoroso é um impulso, um "pulu pêlo tôpu"?, liberto "do egoísmo primário", nessa satisfação socialmente empenhada. Dessa forma, a boémia, a noite, esse riso sem contrição, é o modo de plenitude, de resposta aos condicionalismos de sexo e condição social. A luta pelo sexo feminino é a da libertação de uma classe, assevera Zana, percebê-lo é fundamental ainda. 

Para Zana, a forma possível, parece-me, arpoada em apneia, não se limita a si, que o ato do eu é um ato do nós; o livro, que ela ausculta, é uma formalização divinatória de si e do outro, dos outros, "na prosa como em toda a parte"; trata-se de uma forma de vigília. É que, e Zana di-lo: "A minha responsabilidade para com o mundo (que frase dos diabos, mas saiu-me, aceito-a) tem que ver com o interior de mim". Esse pessoal que é público. E não há terra de ninguém. 

Desta forma, o amor é subir em direção ao crescimento, orgásmico e tendencialmente eterno; "Temos tanta coisa para fazer juntos que não sei se o mundo durará tempo bastante". O sexo de Zana ou da poética de NB é o da identidade e alteridade, do sacro, da incursão pela imobilidade do tempo, estado de rutura, de rigor religioso, portanto. Talvez seja por essa razão que o suicídio venha, desvalido, ao sussurro deste texto, pois são Eros e Thanatos personagens camufladas. O erotismo e a morte são par baloiçante, todo orquestral. As metáforas sexuais são claras: o orgasmo é esse mergulho na piscina sem água, salto para o alto sem gravidade: explosão a dois, "eu-mesmo não é, nem pode ser, eu-só"; travessia do eu para a afasia violenta e anulante. Reestruturação a dois. Subida pelo "desejo acima". Na boca de Luísa Estrela, "Oh pá, tu sabes lá o que é uma pessoa vir-se", na de Zana, "estar metida em vida", na do homem, "revelação [...] cair a pique". Momento extasiante, abandono corporal, esmorecimento de consciência, pequena morte. Dissolução e reunião, unio oppositorum, mortificação, calcinação, sublimação, o em-si jungiano. E o ser torna-se outro: "Sinto que a minha relação com o Puto cresce diariamente, porque cada vez o conheço menos e ele me conhece menos, e confessamos isto alegremente um ao outro. Alegremente: aqui está o crescimento." Zana dixit.

Ora, esta maturação, metamorfose salvífica, é um namoro com a morte sem horror, e preconiza, no texto, a Miscellanea d' Alchimia - o andrógino, pois que a Obra é feminina e masculina. Poesia de catábase e ascese. "Acordo completísismo", Amor, amor mio. Ya morimos juntos. Ay! Terminad vosotros por caridad este poema.

Mas estas mortes de Zana (Zana + narrador/ "o homem"), hão de converter-se em morte física e espiritual da/o mesma/o. Repare-se que no "Primeiro Assalto" deixa de haver primeira pessoa para dar lugar a um ele, o homem. Descoroçoado, sozinho, meio. Ou já dizível na ficcção? Cada um tem um lugar ativo no mundo. O de Zana é a escrita, mas "Tudo e todos conspirarão para que [eu] não escreva". Ora, esta relação com a escrita assume contornos verdadeiramente religiosos, rito e confirmação, sacrifício e comunhão do eu com o outro, é afetação tal que põe em causa a identidade e corporeidade de Zana/ narrador/ autor. Diz-nos Zana: "Sou arrastada para a criação literária por duas razões fundamentais: a infungibilidade da forma estável que poderei dar à parte da vida humana que conheço e o meu desejo de me unir ao Outro. Nenhum contacto humano directo vai tão longe (para mim) como sinto que pode ir o acto de escrever." A escrita é um modo íntimo e sempre político de agarrar o mundo. Trata-se de um contrato com o outro, uma verdadeira comunhão. Poética de Bragança, certamente, escreviver. A mulher é aqui figura iniciática, ensina a escrever, ensina a morrer. E assim, talvez ao homem lhe seja permitido entrar finalmente no dia.

A morte de Zana acaba, portanto, por demonstrar impossível a simbiose, seja por motivos de inclinação de ordem individualista, seja, essencialmente, por oposições sociais. É que, no fundo, o "encontro invulnerável, o pas de deux" não "está garantido contra as arritmias."

 

 

 

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