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29
Ago18

Leitura breve de A Árvore das Palavras

por Cláudia Capela Ferreira

 

Uma rapariga, Gita, em processo de identificação, ultrapassando as dores de crescimento, acompanha os destinos de duas nações: uma em declínio, outra em promessa: Portugal colonialista e Moçambique independente (ainda que com ponto de interrogação, como a protagonista, a custo, escreve num muro). Lourenço Marques é-nos apresentada pelos olhos de Gita, ganhando consciência das intransponíveis divergências, à medida que o espaço mítico da infância se descarateriza, situando-se social e cronologicamente. Do esvaziamento dessa idade infantil, num diálogo assaz difícil com a figura materna (ambicionando esta ombrear com a imagem das mulheres dos centros urbanos europeus em elegância e desenvolvimento - uma Lisboa colonial, a verdadeira metrópole), e em delírio absoluto com a figura paterna, a par da mãe negra que nunca a hostiliza, e a recolhe no seu seio (Moçambique, ou África, num retrato algo melancólico, como todas as descrições infantis, no que de extasiante elas ainda guardam de nós na ingenuidade da anulação da diferença), Gita acede à idade adulta, reidentificando-se, ultrapassados os ritos de passagem. Estes ritos não se limitam, porém, à transposição do primeiro amor, centrado na figura paterna, simbólico, para corporizarem a vivência inteira e desinibida da inevitabilidade da paixão desiludida face à permanência ostensiva das diferenças tidas como interdição. Este binarismo, demonstrável na estratificação total de Joanesburgo, visitado por algumas personagens, e, aparentemente, parcial no caso de Lourenço Marques, é consentâneo com a diferença de classe, a que os amores de Gita e Rodrigo, cujos olhos são sempre da cor indefinível do mar (dessa dissolução e distanciamento, como diria a mãe daquela) não resistem. 

A figura materna é sem dúvida de destacar nesta obra. Omissa, ou omitindo-se autonomamente, no caso de Amélia, nunca liberta de um plano de fuga para o passado e de uma propensão para a outridade, declina as suas ligações afetivas em função de um mito. Constata-se, nessa anulação dos seus, uma anulação de si. De facto, originária de uma realidade económica e emocionalmente limitada, cuja fragilidade há de vir a sobejar por motivos sociais, Amélia deixa a sua aldeia, onde só poderia encontrar sujeição à sobrevivência, e parte no sentido que se lhe apresenta como a viabilidade possível. Não deixa, porém, esta escolha de ser fruto de um acaso, após ler um anúncio no jornal que embrulha uma encomenda. Após uma viagem-martírio, Amélia aporta em Moçambique com um sentido duplo de sobranceria e subalternidade, o que a há de seguir como método de decalque, distinguindo os brancos dos negros, os ricos dos pobres, os sofisticados dos pobres, os elegantes dos pobres, os inteligentes dos pobres. O outro do eu, da noção comiserada de si. Como tal, apraz-lhe o estrangeiro, seja os nomes, as geografias, os semblantes. Assim se outra Amélia, absorta no seu segredo de domingo à tarde, fechada sobre si, cingindo-se à construção da imagem duplicada da sua identidade: Patricia Hart (difícil/ duro, em alemão, e lido como coração, em inglês), que há de repetir o trajeto inicial, iniciático, correspondendo-se com outro homem e viajando ao seu encontro. Por outro lado, a ausência da mãe de Rodrigo é também relevante pela simbologia da anulação feminina perpetrada pela figura do marido, e de que resultam consequências assinaláveis não somente nas suas vidas, como também nas das gerações delas dependentes. É que os atos não se esgotam nas mãos que os praticam. 

Não é de todo ilegível a estratificação de Portugal no início e meados do século XX, tentando demarcar-se do seu passado modesto e abraçando o título de senhor entre os senhores, epíteto que lhe ficou sempre à larga, não fosse a suposta humildade atestada pela miséria do seu povo. Além disso, a dispersão identitária, ainda que sob nome comum (Portugal - e é tão visível essa noção de despertença nas personagens do romance), nunca se desinstalou, quer para o povo colonizado sob o pretexto da unificação pela língua e maneiras, quer para os colonizadores, os que haviam de retornar, sem saberem exatamente onde deixavam o coração. Todos in between. De facto, a ida de Gita para Lisboa antecipa já o sofrimento que se infere da guerra colonial e do retorno, ainda no horizonte. O mar, que aproxima, afasta, é um símbolo de significado díspar dada a sua oscilação. 

Assim, Gita encontra-se também dispersa entre a Casa Branca e a Casa Preta, os braços de Amélia e os de Lóia, nas várias tentativas de reclamar pertença a uma delas, ou, destacadamente, à segunda, já que a primeira se vota à exclusão pela imposição constante de fronteiras. Mas releiamos Amélia, que, na sua hostilidade, além de simbolizar a incomunicabilidade entre Lisboa e África, faz radicar a sua dissolução num substrato mais profundo, na pobreza. Ainda que Laureano se possa tomar como voz politizada - como a de Gita, a seu tempo, há de tornar-se - criticando o discuro imperialista, não é de desdenhar que, a certa altura, se cale, se anule. Se Penélope, a costureira que Amélia revive, vai cosendo panos, desmanchando peças e cortando, qual Parca, cerces as linhas, desiste da espera, Gita não renuncia à sua vida, lesta nas decisões. A voz masculinizada cala-se, e as mulheres, cada uma segundo a perspetiva que lhe calha, atendendo às vivências, respondem à vida por via simbólica ou discursiva. O passado, sobre o qual nos é proporcionado um olhar enriquecedor pela sua subjetividade, multiplica as vozes e as perspetivas, explicando efeitos e consequências. Amélia não pode deixar de ler-se como aquela fação do Portugal ingénuo, pobre, ansioso pela vivência de um eu mergulhado ainda no mito fundador, de cujas vestes não consegue, afinal, demitir-se, e abraçar uma visão de carácter poliédrico, potenciadora de verdadeiro conhecimento e respeito pelo outro. Deste modo: "impostura e fingimento". Duas palavras essenciais em A Árvore das Palavras. Impostura da realidade, fingimento das identidades, incapazes de aceitar (Amélia) ou fazer aceitar (Gita e Laureano) o hibridismo identitário. O fingimento, tão português, esse fiel prossecutor de um destino maior, cabe inteiro na figura de Amélia, na decência do trabalho, na necessidade salvífica de promoção profissional - porque, e só porque social - num certo arrivismo, portanto, de que a ânsia pela exclusividade é expressão maior, e no tolhimento de se querer ver sempre com outros olhos sem, contudo, conseguir estender a mão à realidade íntima e voraz do fundamental. Ninguém disse que os mitos, afinal, não coatam.

Se Amélia se identifica por e para fora, Gita identifica-se por dentro. Esta noção do eu, interior, por parte de Gita, assenta na virtude de comunicar, ultrapassando as iniciações a que ela, consciente, responde. Inequivocamente, o pai de Gita é-nos apresentado como um namorado simbólico, um primeiro amor, uma paixão como pelo mar e pelo sol, cujo destaque, naturalmente, decai para o real. O fim da infância, relembrado atempadamente pela voz de Gita, enuncia os rituais do "rapaz negro" e "das raparigas negras", aqueles recebendo "outro nome", estas penteando-se "de outro modo, quando sangram pela primeira vez" (Gersão 2003: 122). A identidade é uma constante e não é circunscritamente delimitável. E é neste contexto que Gita reinvindica: "Mas a verdadeira iniciação é o encontro com o sexo oposto, ocorre-me. Porque só então se conhece também o nosso" (Gersão 2003: 12). São, naturalmente, palavras de uma rapariga heterosexual, enunciando depois os nomes de Roberto e Rodrigo, aparentemente indecisa, avisadamente lograda. Ainda assim, sublinhe-se: o encontro com o outro, com o diferente, que é também o próximo, independentemente das suas mais ou menos destacadas diferenças. Esta perspetivação da realidade permite a Gita o que Amélia já não alcança, porque esta corre para a imagem e a anterior corre para o corporização do indivíduo, e nisso há grande divergência. Uma direciona-se para uma linha paralela, para uma visão ulterior do real, outra para o interior e para o tangível. Dessa forma - e ainda que ambas pareçam percorrer o mesmo caminho mas em sentidos inversos, como se fossem sempre da categoria do móvel, mutáveis, fadadas à busca de si (e é certo, o lugar da mulher na sociedade ainda não era onde elas o queriam) - se uma, pretensamente, se anula no ideal desconexo, a outra está certa de que pode vir a construir o futuro, ainda que comece frustrado pela imposição de uma identidade sociocultural decorrente, em primeiro grau, da classe social, e, depois, do estado transfronteiriço de transitoriedade que lhe é associado (veja-se a antevisão do tratamento da sua chegada à casa das primas de Lisboa, em muito similar à perceção do estatuto de deslocada de Amélia em casa da madrinha). Porém, talvez esse pretenso estado de incompletude ou suposto indizível seja, afinal, o lugar certo. O que importa é partir, já dizia o poeta. 

Mas não se pense que Amélia não tem espaço interior; ela própria o evidencia muito claramente, mas fechando-se, presa de si própria, nos segredos dos domingos à tarde, em que se distancia da sua realidade, na vivência solipsista de uma espécie de bovarismo, o que não deixa de ser doloroso de reconhecer. "Patricia - Hart. Uma mulher alta, loura. Estrangeira. Uma mulher bonita, rica, admirada. Patricia Hart." (Gersão 2003: 95) E, mais tarde, "Sem se dar conta, a vida fugia. Parecia impossível, mas tinham passado vários anos" (Gersão 2003: 104). Note-se que Amélia deixou o país na sequência da perda da sua honra, o que, dificultaria, no ver da madrinha (e sabemos que a madrinha tem razões mais profundas para se despedir da afilhada), a sua vida. Ora, o rancor de Amélia é sobretudo por tudo o que não se coaduna com a sua sorte. A pobreza, o ser mulher, a desolação de deslocada. E, repare-se, a filha acaba por repetir o trajeto materno, ainda que, desta vez, o desengano não ponha em causa a sua validade senão de forma enviesada, já que a moral da mulher é sempre censurável. De uma forma geral, as relações entre mulheres são tensas e oblíquas, como se a a presença masculina as oprimisse. Seja a madrinha de Amélia, enjeitando-a pelo mistério da sua filiação, seja Amélia relativamente a Lóia, ou às senhoras da sociedade, ou ainda a relação daquela com Gita e o desencanto desta face ao primeiro romance, o que vigora é um desfasamento da mulher do mundo, mais ou menos inexistente nas relações de Lóia com Gita e as meninas, ainda que seja aflorada a violência e submissão da mulher moçambicana no contexto cultural em que se encontra inserida. Sublinhe-se, ainda, a doença e a morte de Lóia, como manifestação da crueza económica. Assim, procurar vítimas e carcereiras é inusitado; os resultados íntimos dos conflitos sociopolíticos são evidentes e desta leitura a subalternização das mulheres não é invisível. 

Amélia, que, enciumada, decidira levar a sério a história das cartas de África, havia de vingar-se do mundo. E ficciona. Ficciona, acabando por determinar o destino, tal qual a Parca. De igual forma, ficciona Gita, ambicionando o desaparecimento da mãe, levando a cabo um feitiço, como se tecesse ela própria o destino. Neste semblante, a ficção e a realidade parecem interligadas, o desejo e a realidade acabam por amalgamar-se e tingir-se, e nem sempre os desejos são avisados, frutos de paixões mais ou menos transitórias. A verdade, a haver uma, é que raramente se compreendem as ações alheias, e, mesmo compreendidas, os atos permanecem. Desta forma, a árvore das palavras, enquanto real, é aquilo que nos apraz fazer delas, num exercício metalinguístico, metaficcional, uma manta sussurrada de retalhos cuja vinculação ao real não é, porém, etérea, e em que o íntimo pode ser político. 

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