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As vozes de Maria Judite de Carvalho são, as que narram, daninhas, mas neste segundo volume das Obras Completas, que a editora Minotauro, em boa hora, tem vindo a reeditar, devo sublinhar a de Os armários vazios, cuja flutuação de focalização denega a noção de voz narradora ausente da história, cercando-se dela, ou esta daquela, como monstro apanhado no próprio labirinto. A novela toma início com a quase indiferença da voz narrativa, perspetivando as figuras verticalmente, e embaraça-se na sua própria figuração, sem, contudo, revelar pieguice, autossabotagem. Trata-se de narrar de cima, e ainda que não se ausente desse estado, a voz tremula na incapacidade de manter-se totalmente ao largo. Confira-se, textualmente: "Estou porém a falar de mim e das minhas pequenas sensações e não é isso que pretendo. [...] Mas não insisto no assunto porque, como já disse, não estou na história. [...] Tanto pior se a minha imaginação e a minha má memória falsearem a realidade." (179).

Da criação de uma imagem de mulher afeta ao gesto do marido à anulação deste e, assim,  à dubiedade da primeira, a novela contextualiza o apagamento da figura de esposa de meados do século XX, a solidão, naturalmente, e a vaguidão em que podem assentar as relações entre o eu e deste com os outros. Dora Rosário em vagas sucessivas de autorreconhecimento, tentativas goradas. Sem ilusórias ingenuidades, sem excessos performativos, autocomiseração. De facto, as mulheres, nos mais exigentes papéis, nunca se prestam à piedade, transformando o estado penumbrado das suas perdas em linguajar combativo, destituindo o outro de lugar para, não raras vezes, se erradicarem do seu. Esta fórmula, a descrição que inicialmente se faz de Dora, Dora vs Gente, talvez seja retomável pela narradora, na mesma prescrição de sobrevivência. 

A figura de Ana, a sogra de Dora Rosário, funciona como espelho e consequente resto de operação matemática, no seu empenho em distender-se para lá do seu corpo, o que quase anula os sujeitos assim adivinhados, proscritos de si mesmos e meras repetições melhoradas do molde inicial. Enfim, esse hábito de temer a morte. E, de facto, ela anda pela narrativa, alimentando-se das figuras, na obrigação de felicidade no matter what, num desejo incontido de prosperidade, procriação, instauração do eu no tempo seguro do advento.

A economia dos acréscimos, a simples sugestão, contrapõe as intrincadas reflexões. Neste caso, o foco da voz narrativa, ainda que não se movimente totalmente de uma figura para a outra, abre-se, agita-se brevemente, e o que era uma narração de foro incisivo num marco exterior, volta o espelho para si, a contrapelo, o que implica a dúvida, já que põe em causa a descrição dessa voz narrativa aparentemente distanciada. Mas não se espere a rigidez entre mulheres; embora a haja, não deixa de se ler compreensão mútua, como também a sarcástica perceção de culpabilização das limitações delas por parte deles: "Era infeliz por eu não ter filhos e procurava compensações lá fora. Ao mesmo tempo, porém, gostava muitíssimo de mim e não podia trocar-me por mais ninguém. Um círculo vicioso muito vicioso. (213)" E, já antes, esta ferocíssima constatação de Ana: "Talvez gostasse também, embora menos, com os homens nunca se sabe. Os pobres foram feitos para ter um harém em que todas as mulheres se entendessem como Deus com os anjos, e isso foi-lhes proibido pela Santa Igreja. O que hão de eles fazer? Acumular ou então, mais raramente, deixar uma para pegar noutra, é normal" (172).

E, para demonstrar um certo cinismo sobre a solidão: "Há refúgios, sim, já tenho pensado. les bonnes ouevreus... O álcool a sós, a embriaguez a sós, uma degradação, mas em todo o caso... Há também quem faça furiosamente, raivosamente, tricot, como se quisesse prender bem presos os fios da vida. Há quem se volte para a poesia ou para a religião. Nada disso, porém, me tenta. Mas não estou aqui para falar de mim", ensaia, nessa anulação de si. 

A arte de ludibriar e delegar para um plano de contaminação da incerteza é transversal à obra de MJC, mas nunca num semblante flébil. De facto, essa contrariedade é deliciosamente, amargamente, reiteradamente irónica, dor que dispensa glorificação pelo artefacto sarcástico que dela se faz. As tragediae persoane, quando muito, em processo de automitificação, são deixadas, geralmente, para as figuras masculinas indecisas, pela preservação de um estatuto de poder de aligeiramento do concreto: "por outro lado, se tivesse tido filhos, isso tê-lo-ia forçado a arranjar outro álibi (decerto fácil, o do infinito amor que o ligava às crianças)." 

Por essa razão, do acidente - acidente irónico - em que se veem envolvidos Dora e a figura masculina Ernesto, resultam duas consequências díspares, é que este cai num monte de palha, "só deslocou um pulso", e aquela é operada, sob anestesia. E a alma? "Também se deixou anestesiar?" Mas, enfim, ele "estava então desolado".

E o extraordinário vem ainda depois, mal se lê Ernesto cumprimentando Lisa, o que não é inabitual no texto de MJC, sabendo ler as pistas miúdas ofertadas. Um certo pendor incestuoso; pelo menos de promiscuidade caseira. Lisa lolitante, a grande cicatriz social da mãe, na face, e a esterilidade de Manuela contra a juventude da primeira. E esse ator em busca de aplauso, dos palcos que vai abandonando, deixando as atrizes em seu monólogo interior. 

 

https://asfloresdelaura.blogs.sapo.pt/maria-judite-de-carvalho-e-a-delicadeza-4613

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