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Contenção lírica, a de Maria Judite de Carvalho, nos seus admiráveis contos, espelhos materiais do tema maior da sua poética, o silêncio. A irreversível incomunicabilidade é transversal aos contos (e que extraordinária contista é a autora!), suplantando, no meu entender, o tempo histórico absorvido pelas suas narrativas, que, muito embora reflitam tão empenhadamente o seu tempo, não deixam de apelar a um desígnio - que poderíamos apelidar de existencialista, querendo mergulhar na objetividade das gavetas onomásticas das correntes e movimentos literários - de maior alcance, a um pendor de cariz profundamente humano. Não se pretendendo aqui um estudo de localização filial, opto por escrever sem a amarra da teoria literária, mais afeta à leitura emocional.

Da autora, fatuamente, só conhecia "Tanta Gente, Mariana" e "A vida e o sonho". Talvez ainda "A avó Cândida". Por qualquer artifício faustoso do destino, por limitação conteudística das disciplinas académicas, ou por minha desatenção (mea culpa, que o tempo corre na direção que se lhe afeiçoa e que nos é possível ofertar-lhe, fazendo-nos crescer, e bem se sabe que as dores de crescimento são esparsas e duram a vida toda, não somos produtos acabados), Maria Judite de Carvalho entrou tarde nas minhas prateleiras. Tivesse entrado mais cedo, certamente lhe teria dedicado mais tempo académico. Não calhou. Ainda assim, talvez haja autores que nos sussurrem de outra forma, mais dentro, e talvez lhes devamos a manutenção desse diálogo silencioso, como uma forma de respeito, um namoro à distância, coisa íntima e segredada. O silêncio.

O silêncio em Maria Judite de Carvalho é um desalento, uma mudez insuperável não raras vezes libertadora. Mais ou menos coerentes com o que o fado anunciou, as personagens, se não acomodadas, pelo menos em aprimoramentos abnegados, relativizam a realidade com acidez, e estão, de resto, afetas a uma finíssima ironia pela mão da autora. Capaz de adiar o mistério até ao fim do conto, muitas vezes mantendo-o, a contista prova a tese da impossibilidade real da comunicação interpessoal, remetendo o destino das personagens para essa situação de vaguidão, de estar não estando, de pertença a um tempo impalpável e a um mundo descarnado, como a descrição da última viagem de Graça ("As Palavras Poupadas") nos sugere. Aliás, quando o conto tem início, acedemos à personagem em trânsito, deixando um edifício em direção ao exterior, à chuva, desbotada talvez, imersa nessa impressão de esboroamento e dissolução aquática. De facto, até o conteúdo do embrulho releva para esse efeito, quando lemos o que ali levava entre mãos, circunspecto no seu habitat, um peixe no seu aquário. Graça bem pode ser esse peixe, no seu planeta translúcido, como há de dizer a autora. Mas regressemos ao ponto de partida: Graça deixa-se livre, flutua, desobrigada de qualquer circunstância socialcom o taxista, "à superfície das coisas e dos gestos e dos sons" (122), sensível à partida sem destino, como um recolhimento, ou desmemoriamento de um remorso, de um escrúpulo, de uma ambivalência imperiosa: pudesse voltar atrás e o que faria? Nadando céleres até ao fim do conto, é novamente em movimento que a encontramos, como esse animal fusiforme e escamoso, replicante e ansioso. O repouso é, enfim, o que busca; evaporar-se nos meandros da sua presença material, negando-a para poder, afinal, resgatar-se dela, ainda assim. Que bela forma de dizer o indivíduo,pois que as palavras raramente são solução para o que já se findou: "Mas qual é a diferença? E se falar, se explicar tudo, o que acontecerá? Mas não vai acontecer coisa nenhuma, tudo ficará irremediavelmente igual e sem conserto. Porque o que tinha de se estragar já se estragou. Morreu uma noite para não voltar" (181). De que adianta depois dizê-las?

Este fatalismo, quase romântico, atravessa todas as personagens do primeiro volume desta nova edição da obra completa de Maria Judite de Carvalho, em boa hora lançado pela Minotauro, prometendo ainda mais cinco volumes. Seja a incontornável protagonista de "Tanta Gente, Mariana", que é dos mais belos, profundos e sentidos contos jamais escritos em português, suspenso na sua refinada ironia e firmeza sociopolítica, elementos que não carecem de divisão na poética da autora pela simplicidade com que consubstancia o íntimo e o social, fazendo-os indiscerníveis, isto é, inseparáveis. O indivíduo, ou, no caso da autora, mais a figuração da mulher, é incontornavelmente um conciliábulo das diversas facetas. Um diamante mais ou menos limado de arestas múltiplas concentrando-se para o interior, num movimento concêntrico e ritmado. Não há camadas, há mixagem de que resulta a personalidade.

Nota-se, então, uma violência intrínseca nos contos da autora, excessos que, não sendo verbais, materializam a resposta sarcástica das personagens e, assim, é fácil relembrar Lispector, no tratamento da mulher, da solidão, da incomunicabilidade, do doméstico e, especialmente, daquilo que nem todos poderiam, naquele tempo, (possam, hoje, ainda?) ver nesse espaço de confinamento e desassossego. No fundo, somos todos domésticos.

Em "Tanta Gente, Mariana" corrobora-se essa ideia fundadora da poética juditiana: a narradora enuncia-se fugindo, em sentido duplo, pois que se despede, e porque não parece reconhecer-se a não ser em breves momentos de uma lucidez dolorosíssima, irónica. Quem nunca? Leiamos: "O mundo é de repente um amontoado de coisas estranhas que vejo pela primeira vez e que existem com uma força inesperada." E explicita: "O pessegueiro do quintal a preparar-se para a flor, a velha cadeira desventrada onde costumo sentar-me, a cama de florão" (14). É o automatismo da vida que Maria Judite de Carvalho interroga, esses passos transidos de normalidade que descerramos sem lhes ver outra coisa que não seja o quotidiano, mas ela, a autora estava atenta e zelosa, obrigada à lúcida aparição das coisas, numa vertente similar à de Vergílio Ferreira, exímia na economia narrativa, recordando Miguel Torga. Mas não se trata aqui de literatura comparada ou filiações. Trata-se, tão só, do génio dessa flor discreta da nossa literatura, como a terá apelidado Agustina Bessa-Luís. De facto, este primeiro conto, não nos bastando, quase se basta para discernir os temas e a profundidade da escrita de Maria Judite de Carvalho, a sua ironia corrosiva, a sua precisão, indispensável aos grandes contistas, o lirismo seco e abrupto, a inteligência sensível e a mais pérfida e angustiante noção da inteira solidão do eu: "Também deste por isso. [...] Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança." (17). Estas frases poderão, porventura, explicar o âmago dos seus primeiros contos publicados. A recusa da superfluidade, a solidão, a dissipação autónoma em função da anterior, e a imperiosa ação do tempo, dos desencontros consigo e com os outros. E, capacitada disso, Mariana referirá: "Para onde quer que me volte só dou comigo mesma. Mas já me vi bastante e acabo de reparar que nada mais tenho a dizer-me. Nada mais." (20) O ponto sem retorno talvez seja o da automutilação da palavra, que, não dizendo, fere, e, dizendo, transgride pelo que dela sobeja. Assim, tanto a palavra como o silêncio são jogadas arriscadas: "Fui eu e o meu silêncio quem lhes deu toda essa ventura. Uma palavra teria bastado, um grito, uma lágrima, mas eu não pude tirar de mim nenhuma dessas coisas. Agora é tarde, porque vou morrer. Seria tarde mesmo que a morte não viesse a caminho" (22). O tempo, numa amálgama, corrói, disseca e nada nos vale.

Se uma abordagem mais subjetivista, psicanalítica, à obra da autora pudesse explicar-lhe o peso da perda, da mudez, da incomunicabilidade, afetas a uma forma de estar coerente com o tempo e o meio daquela, também lhe negaria a discrição com a qual pareceu pautar a sua vida. De qualquer forma, o conhecimento precoce da figura da morte talvez possa dilucidar-nos sobre a ubiquidade da mesma nos contos. Por outro lado, ou decorrente dessa noção de infalibilidade da anterior, a autora,pela voz de Mariana, declara, acerta altura, incisiva, na acutilância típica dos sarcásticos: "Não reparava, a pobre Lúcia, que o possessivo é, na maioria dos casos, puramente ornamental"(31). A narração torna-se gradualmente mais dolorosa, sem, contudo, se acercar da emotividade fácil, sendo que a palavra exata, concisa, muito contribui para o efeito. Num dos passos mais ferinos no que respeita uma laniar auto-apreciação, a narradora diz-nos, obrigando-nos, mesmo que inadvertidamente, a reposicionar a nossa bússola existencial: "Vida verdadeira já eu não seria capaz de viver, porque lhe perdi o hábito [...] Nunca me habituei a ela [...] Troquei tudo, baralhei as coisas a ponto de me não achar a mim própria" (34). Esta dissolução, afeta ou decorrente das comoventes desilusões da protagonista, compreende-se de viés como uma espécie de morte em vida, de anulação, sublinhando a diametral presença da morte, quer metafórica, quer literal. E as palavras, das cartas e dos diários - monólogos, afinal - abafados, sonegados, anulados, são de si para si, pois "não valia a pena mandá-las" (36). A esta abnegação, a este desencanto com a palavra, a narradora responde sempre com um riso perverso e não com flagelação; não sendo angustiante, antes comedido, o desassossego é de outra estirpe, próprio de quem, apesar das circunstâncias, se ri fora d'horas, assim como, no seu leito de morte, Sara, de Missa in Albis, de Maria Velho da Costa.

Se a dimensão familiar, na sua mudez e indisponibilidade, é amplamente descrita, ofertando-nos pequenas gravuras caricaturais do quotidiano abafado do início do século XX,quer em "As Palavras Poupadas", quer em "A avó Cândida", "Noite de Natal" e "Câmara Ardente", a vivência dos amores, e seguindo a rota do desencontro, é inevitavelmente desfasada, pois aqueles são vividos - ou evitados - a dois tempos, compatíveis apenas com o espaço mental de cada interveniente, já que os planos individuais se restringem a mundos unilaterais na sua extemporaneidade. Veja-se Luísa e Duarte, em "Desencontro", que, mais do que evidenciar essa incompatibilidade, mimetizam a dimensão social e moral masculinizante da primeira metade do século XX, ou "O passeio no domingo", "Uma história de amor", em que perpassa, como, aliás, já em "Tanta gente, Mariana" e "As palavras poupadas", outra materialização do indisponível, do instável, da efemeridade das relações: o adultério e a infidelidade. Não me parece que lhe seja dado um tratamento moral, antes demonstrativo de uma série de prevaricações da palavra - no que ela representaria de interlocução concreta - e de efetivação da deceção incontornável por meio do natural apodrecimento das relações. De uma forma geral, as personagens estão sempre sós, falam para si, desentendem-se sozinhas, e só em estado ébrio se regista uma persuasiva mas simulada tentativa de reunião, como regista Mariana: "Engoli a cerveja de um trago, depois outra e outra ainda. Tudo se tornou diferente. As pessoas eram de súbito muito mais simpáticas e gostaria mesmo de as abraçar" (27). A situação da mulher, obediente, submissa, comedida, é-o em aparência, como se por dentro, estas personagens, afinal, estalassem, rindo ou chorando.

Maria Judite de Carvalho tem, talvez, neste mundo de intermitências luminosas, sofrido as consequências do seu comedimento, da então reserva da sua imagem, mas a sua obra, ironicamente, e em silêncio, reclama, pela magistral beleza e profundidade, leitura.

 

Carvalho, Maria Judite de (2018): Obras Completas de Maria Judite de Carvalho - vol. I. Tanta Gente, Mariana - As Palavras Poupadas. Lisboa: Minotauro.

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