Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



04
Mar18

Modo Óscar (work in progress)

por Cláudia Capela Ferreira

A Forma da Água, de Guillermo del Toro, o mágico do Labirinto do Fauno, há de ser a película mais metafórica de todos os nomeados ao Óscar deste ano, dando protagonismo à figura do outro nas suas diversas aparições, convidando-o e dando-lhe lugar de destacada honra na boca de cena, como se dissolvesse as margens e a insensata e injusta imagem daí decorrente. As personagens, esses outros, representam todos os silenciados pelos atributos que a narrativa social entendeu dar-lhe. Localizando a ação no tempo da Guerra Fria, del Toro enfatiza uma correspondência entre essa era e a contemporânea, como se não resistisse à formalização da pergunta: Não parece coisa de outro tempo? E o que parece de outro tempo? A rivalidade doentia, a competição, o racismo, a misoginia, a xenofobia, a homofobia, a ignorância. Coisas assim.

A protagonista, belissimamente interpretada por Sally Hawkins, é muda, e na sua mudez metaforiza-se todo um silenciamento de desajustada, sendo mulher e desempenhando um trabalho olhado de forma enviesada. O ambiente poeticamente escapista a que o realizador nos habituou faz um exercício singular de embelezamento da realidade, sem deixar, por isso, de a questionar, de a sequestrar e submeter à crítica. A violência, tão (apetecida e ternamente) humana, continua a ter lugar de destaque, personificada, neste caso, na figura sórdida do macho dominante, figuração do poder social, económico, físico e sexual. O amor improvável - como alguns lhe chamaram, não o é de todo, pois isso seria atribuir ao amor uma característica que ele parece não ter, a particularidade do expectável – entre Eliza Esposito e a outra criatura, o Amphibian Man, é, apenas, uma melódica pintura do que recorda os amores proibidos d' outrora e, mais ainda, uma ode ao diverso, ao tido como estranho, a toda uma vida que, afinal, reside no mutismo. A solidão, doença manifestamente impregnante do nosso tempo, passeia-se livre pela história, doridamente, e combate com a nossa, espelhando-a, censurando-a, apelando à comunicação. A metáfora, assim disposta, aclara-se e escusa comentários como este; desprestigiá-la apontando incoerências internas é desconhecer a natureza onírica da poesia.

 

 

Dunkirk, de Cristopher Nolan, encontra-se na outra ponta da linha. De natureza absolutamente realista, age como um documento ficciconal do que terá sido a evacuação da praia de Dunquerque. Ao tempo, a par de outros exemplares da filmografia de Nolan, é concedido total protagonismo, e todo o filme assenta no tratamento do mesmo, fazendo-o - com o efetivo apoio da excelente banda sonora de Hans Zimmer - convergir para o momento tensional de desenlace. Nolan faz o tempo escoar-se obsessiva e claustrofobicamente enquanto Farrier, expressivamente interpretado por Tom Hardy, vai contando os gallons de combustível restantes. É, sem dúvida, uma das particularidades mais interessantes do filme: o tempo, a sua fugacidade, a sua indiferença ao tecido humano.

Às personagens não é delegada eficaz particularidade, elas esvaziam-se, de alguma forma, indo ao encontro da estrutura maior afeta ao filme; é de uma multidão em movimento que se trata essencialmente, do facto de a humanidade, ao fim e ao cabo, apesar das perdas injustas e, no mais das vezes, escusadas, caminha sempre em frente, não obstante a perfídia, a mentira, a violência. A par de A Forma da Água, a leitura sociológica não deixa de ser, apesar das vicissitudes decorrentes da imperfeição humana, tendencialmente positivas, em dependência quase total da expressa vontade moral dos indivíduos. Não é, portanto, coisa de somenos.

 

Três Cartazes à Beira da Estrada é um filme extraordinário, quanto mais não seja pela extraordinariedade das situações em catadupa. Improvável, dizemos nós, mas tão consolador. As peripécias decorrem umas das outras como a eficaz metáfora das peças de xadrez, piorando em grau os resultados. É uma história de raiva, de culpa e da gestão e direcionamento mefistofélico da mesma, onde a violência doméstica, a misoginia, o racismo, a homofobia e o abuso de poder vão travando curtas mas efetivas conversas, numa América onde a impunidade parece ter um preço gravoso nas relações quotidinas. Assim, a mãe de uma adolescente violada e assassinada procura justificações e culpados para tão desumano ato - não deixando de figurar-se entre as possibilidades - procurando debelar a raiva na colocação de três billboards outside Ebbing, Missouri, catarse que teima em chegar, e acusação a escarlate da comunidade e, em último caso, de si mesma.

Frances McDormand tem uma prestação soberba, comparável à de Fargo, o argumento é excelente e a narrativa escapa a qualquer tipo de sentimentalismo ou avisado juízo de valor; as personagens são credíveis e humanas, assim mesmo: imprevisíveis, perversas. Não deixa, porém, de haver lugar à possibilidade de redenção ou, pelo menos, de consideração de libertação do ódio e isso é já meio caminho andado para a pacificação. A loucura também há de saber silenciar-se. Maravilhoso.

 

 

Sobre Call me by your Name

http://asfloresdelaura.blogs.sapo.pt/call-me-by-your-name-a-nostalgia-da-2922

 

A Hora mais Negra foi, de facto, nebulosa. O filme realizado por Joe Wright incide sobre a tumultuosa substituição de Neville Chamberlain por Winston Churchill, as lutas pelo poder político interno decorrentes da primeira e a desastrosa batalha de Dunkirk, representada no filme de Nolan com o mesmo nome, e que, a par de O Discurso do Rei, poderia oferecer-se, neste contexto, como tríptico artístico do início da II Grande Guerra. Não se trata de um filme de argumento, antes, de personagem, explorando o carácter abrasivo de Churchill e a sua batalha contra as vozes críticas internas instigadoras de uma eventual negociação de paz. Churchill diverge, opõe-se a qualquer tipo de empresa pacífica com a figura de Hitler e seus lacaios, e o seu famoso e inspirador discurso ganha significado com o sucesso da operação Dínamo, apelando à ação individual na repressão do fascismo. Como não poderia deixar de ser, e embora não se possa fazer desta leitura a fundamental - ou posso? -, parece-me inegável uma visão socialmente implicada no tecido fílmico, dado o contexto sociopolítico atual, mesmo que o realizador negue qualquer pretensão didática. A receção de Dunkirk já fora efusiva nesse sentido, e este filme não se retrai a visões duplas; se há quem os diga reforços de uma verticalidade orgulhosa britânica, também os podemos ver sob o outro lado do prisma. Nesse sentido, uma das cenas mais expressivas é, de facto, a do diálogo de Churchill com os commuters no metro, e é bem possível que aquilo que lhe possa faltar em fidelidade ao real e lhe sobre em devaneio, acrescente grandemente à ficção o que ela predispõe – de outra forma, seria um documentário, como alguns parecem olvidar; hoje, não se aprecia uma metáfora, não se lê nas entrelinhas, tudo se tornou aborrecidamente real – criticar, senão idealizar um Reino Unido (e, por extensão, uma Europa e um mundo; não esqueçamos o crescimento dos nacionalismos europeu e americano) em que o diálogo, quer interno, quer externo, parta de parâmetros nobres, éticos, humanitários, por oposição ao facilitismo, ao populismo, ao extremismo e nacionalismo.

De resto, é de frisar, naturalmente, a consistente prestação de Gary Oldman, preocupado com a representação, nesta perspetiva de Wright, de um homem firme, mas apreensivo, fazendo da dúvida um suporte constante, e tornando os seus mais repreensíveis defeitos em pragmáticas qualidades. A sua natureza inegavelmente belígera, o discurso inesperado e a intempestividade das suas resoluções assustam, inclusivamente, a figura do rei, que o afirma: "You scare people [...] One never knows what is going to come out of your mouth". A palavra é instrumento ofídico e Churchill era bom com elas.

É ainda de referir o cuidado com a caraterização, o guarda-roupa, o cenário e a fotografia. O filme é sóbrio, mas faz pensar, e o primeiro ato de resistência, mesmo que não tenhamos de permeio o Canal da Mancha entre nós e o mal, é sempre o pensamento.

 

http://asfloresdelaura.blogs.sapo.pt/call-me-lady-bird-ou-o-prazer-de-estar-3806

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Arquivo

  1. 2018
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2017
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2016
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ