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30
Ago18

O Delfim de José Cardoso Pires, a sedução da estória

por Cláudia Capela Ferreira

O Delfim, de José Cardoso Pires, lança mão do mistério e não desiste de, a par dos grandes peixes sondados pelo Engenheiro Palma Bravo, o aprofundar nos barrentos sedimentos da lagoa . Esta lagoa, que bem pode ser uma metáfora do anacrónico Portugal dos fins de sessenta, submerge Maria das Mercês, qual Ofélia, e lubridia os leitores, pois a narrativa não pretende, nunca, desenlear os fios; pelo contrário, somando-lhe acréscimos, ambigua, distorce, cerceia para religar, pois que as vozes - ainda que, manifestamente só leiamos uma, reservado o papel de narrador para o escritor-caçador, bom ouvinte -sussurram e logo se escusam na perspetiva dos demais. Seja pela boca do velho dum só dente, do regedor, do cauteleiro, da hospedeira, do batedor, do padre novo, ou até pela do próprio Engenheiro Palma Bravo (o Infante, esse último Delfim), o narrador faz transbordar o texto de sugestões, conjeturas, mitos e presunções, cuja verbalização, que o narrador escuta para recontar, na clara perceção de que durante o processo possa já dar-se ação mediadora e por conseguinte contaminante (que termo usa o falante e o que reconta?),  é toda ela submetida igualmente à mundividência, aos preconceitos e superstições dos falantes.

Mas não vale a pena seguir nenhuma pista, ou, insistindo, atemo-nos àquilo que nos parece, pois, enfim, a realidade, mesmo a mais efetiva, é sempre perscrutada segundo um sentido sombrio como os fumos da lagoa, obedecendo às mais interiorizadas disposições. A decidibilidade não é um dom humano, ou os mistérios perdiam a legitimidade. 

José Cardoso Pires deixa que o leitor se aproprie da estória e, afoitamente, se declare parcial, deixando-se desconduzir, participando na subtileza da criação ficcional, senão mesmo optando pela pequena infâmia que lhe aprouver. Há um crime, qual o móbil? Que certeza temos da mão assassina, senão a moral, imiscuida nessa lagoa paternalista, misógina, racista, classista e doentiamente anacrónica encabeçada pelo último dos fidalgos? 

A obra, valendo-se da intriga dos intervenientes, retrata um país definhante, silenciando de alguma forma as vítimas maiores de um tempo profundamente enraízado em imprecisões medievalistas. De facto,torna-se efetivo sublinhar os Noventa e Oito, essa cooperativa cuja designação antecipa já o fim de um tempo distendido até às consequencias mais desumanizantes. Trata-se de uma cooperativa a combater a exclusividade da lagoa, a manutenção de um privilégio por parte de Tomás Manuel, último dos Palma Bravo, cuja linha termina não por imposição direta exterior, mas, especialmente, por incapacidade do próprio, teimando em reiterar processos sociais tolhidos, lidos nas suas imprecações, tendencialmente contra as mulheres, a par da sua genealogia familiar. Se a mulher recebe respeito nulo, a não ser pela sua castidade, inclusivamente face ao marido, como o engenheiro referirá (de que se esconde, Delfim?), também o servo, ao contrário dos cães e montada (o Jaguar, no caso do último dos Palma Bravo), é merecedor de um descrédito totalizante. A relação entre estas personagens é amplamente dependente da composição da imagem do infante, pelo que, na estreiteza de gestos a que os submete, Palma Bravo vê-se reduzido à memória de si que sobra dos cães, pois a anulação existencial de Maria das Mercês e Domingos já não basta quando a sua imagem/honra é posta em causa. Os cães são a memória dos donos, há de reclamar. E é precisamente essa sombra que resta, dando-nos fulgor para compreender a relação de Palma Bravo com Domingos, com Maria das Mercês, bem como a destes últimos. 

Maria das Marcês é-nos apresentada, em jeito de homenagem, como a mulher inabitável no capítulo a que o aposto anterior se refere, como sendo inteiramente preenchida por uma romãzeira em flor. Ora, a descrição imiscui-nos a atenção nesse símbolo de fecundidade, da árvore de fruto que, no caso de Mercês, estando brava (bravia, selvagem, sob o domínio dos Bravo, mas sáfara ou por semear?) é "assaltada por legiões de formigas". "Mas e os homens maninhos?"

Confundamo-nos então nesse reino impassível da literatura. Palma Bravo não é chamado a dar contas do caso, mas remete toda a sua atuação para a criação da imagem do homem são e bravo, viril, pândego, do fado e das mulheres que são ora cabras, ora aves de pouca credibilidade quanto ao tratamento do macho, a par da metáfora da fêmea que, após o acasalamento, mata o macho. Aliás, quando o narrador deixa que o engenheiro tome as rédeas da condução ficcional (e note-se o aborrecimento deste com o desplante do escritor em tomar-lhe a estória como se de plágio se tratasse), este conta-lhe também o caso singular da mulher que, aparentemente, assassina o amante na cama, mors post coitum (fobia da mulher, da permutação de lugar, Delfim?) fazendo-nos crer no decalque do enredo, quando o corpo de Domingos é encontrado na cama do casal. Aliás, já a descrição do ato sexual dos mastins de Delfim denotam o expetável. Mas por que se deitam, aparentemente, Domingos e Mercês? Na opinião de Palma Bravo a virilidade do anterior não é de fiar, comentando entredentes com aquela sobre a incapacidade de Domingos junto das mulheres. Mera manora de diversão face a Mercês, essa mulher bravia (intocada, virgem?)? Ou extensão clara da sua impotência? De facto, o Delfim há de tomar a suposta inabilidade sexual de Domingos como uma desfeita da sua própria imagem (o engenheiro não deixa de rever o seu poder na força com que molda Domingos à sua semelhança, e o duplo é sempre perigoso pelo que incita nos outros a lê-lo como extensão de nós, podendo ser usado ora como agente de desejo, ora como recetor de vingança, e de facto, há de, entretanto, afirmar-se que quem não pode vingar-se nos amos, se vinga nos seus cães). Por outro lado, porque se refere tão abertamente à mácula feminina, bem como à única viabilização de decência da mulher, mesmo no papel de esposa, devendo ser obediente ao princípio da abstinência sexual? De resto, a sua orientação sexual, ainda que tão eximiamente provada pelas constantes idas à cidade, aos bares e lupanares, não é, apenas, aflorada por essas mesmas imprecisões e murmurações? Assim, e se a relação de Domingos e Tomás Manuel transcende o vínculo de pendor, digamos, profissional, bem como qualquer hipótese, a meu ver mínima, de filiação enviesada, restam as hipóteses de impotência ou esterilidade do Delfim, e/ou de atração pelo seu servo Domingos, naturalmente manifestadas nesse processo de violência e apego, repulsão e proximidade, numa exercitação do seu poder de Infante, homem, másculo, na categoria de elevação socioeconómica, de género e etnia. 

Os privilégios de classe e de género são assim instrumentalizados neste romance, evidenciando as mazelas sobre os discursos murmurados daqueles que sempre foram tidos como naturais submissos do poder dos infantes como Palma Bravo e que, naturalmente, estavam em vias de desaparecimento graças às alterações sociais antecipadas já nos anos sessenta. Quando Maria das Mercês e Domingos morrem, Palma Bravo desvanece-se, ainda que a sua memória paire como um aviso. A mortificação da mulher já não é aceitável, e a violenta repressão, quer mental, intelectual e física, sobre Domingos pode representar a ação do europeu sobre o colonizado, limitando-lhe a personalidade, recortando-o à sua imagem e semelhança, num processo de amputação individual e cultural de que o coto de Domingos é exemplar símbolo. Neste caso, Palma Bravo parece dar a interiorizar também pequenos traços da sua própria personalidade íntima, focalizando no seu servo imperfeições ou deformidades suas. Mais do que um adultério, O Delfim trata das imprecisões de identidade, do duplo subalternizado, da negação de liberdade de individuação da mulher e dos economicamente fragilizados, da anulação constante das vozes que, ainda assim, nunca foram ouvidas, pois outras teimam em dar pareceres, reiterando esse sistema de silenciamento a que só a morte pode dar descanso. 

A memória, o tempo e a morte são em O Delfim três vértices fundamentais sobre os quais volteiam os fios de Penélope, vozes multimodais, que distendem e folgam a narrativa e por conseguinte as personagens, num jogo tão sinuoso como a vontade dos indivíduos.

Assim, levanta-se o véu sobre os inferiorizados, embora de realista a obra só possa ser de tema, sem deixar-se circunscrever-se-lhe, pois de forma é condizente com o pós-modernismo, nomeadamente na aposição de narrações multiplicadas, na sujeição do tecido textual às fabricações metaliterárias, esse exercício crítico metaficional que o autor tão despudoradamente executa, aferindo junto das diversas vozes, que, no fundo, são sempre a de um autor jocoso, inebriando com os fios a perspetiva de uma realidade que, tão clara, tão prenhe e fértil como a água, também rapidamente se tolda, embaraça, tinge de lama e mata, como a lagoa.

 

 

 

 

 

 

 

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