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As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

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The Handmaiden, de Park Chan-wook: a perspetiva das que partem

10.01.19 | Cláudia Capela Ferreira

A Criada (The Handmaiden), de Park Chan-wook, se não é, poderia constituir um tributo ao famigerado Rashomon, de Akira Kurosawa, enquanto composição celebratória da simulação. Jogo de perspetivas, a estória basta-se e desbasta-se, reposicionando os mesmos símbolos, os lugares, os gestos, confrotando-os, num ludismo esteticamente apelativo. Baseado na trama do romance Fingersmith, de Sarah Waters, não se trata apenas de um semblante metalinguístico, recreativo na forma; antes, um labor destemido de distinção de sombra e luz, vilania e dignidade, abordando a violência e a morte como representações prováveis de uma supressão de liberdade aqui agilizadas pela mão máscula dos homens e de um povo submetendo a outro. 

O ardil toma lugar na Coreia colonizada pelo Japão, nos anos 30,  e, de certo modo, a violência perpetua-se nas leituras erótico-pornográficas de Hideko, perspetivada pelo olhar maculino, naquilo a que o realizador, por via da inclusão de múltiplas cenas amorosas lésbicas, tenta escapar, como subversão de um mito assumidamente misógino: o da mulher, como propriedade, servindo a dúbia parafilia masculina, simbolizada no desenho e na inclusão do terrível e assustador polvo, que, enfim, decalca a assistência masculina de tais leituras. Filtre-se o título, The Handmaiden

A ambiguidade, enquanto fator decisivo, acrescenta uma leitura demarcadamente femininista do período, delimitada pela clausura do que se assemelha a um convento perdido numa floresta, um jardim distante onde se confinou a pobre (?) Hideko. Aparentemente, pois aqui tudo trata da aparência, será servida pela ágil ladra Sook-hee, e seduzida por um malfeitor, tentado a subsuituir a clausura da casa do questionável tio daquela por um manicómio, com o intuito de receber a sua herança. Depois, a segunda e a terceira partes baralham as deixas das personagens, redistribuindo o eco das suas falas, numa montagem pós-modernista do significado, na noção palimpséstica de recriação ficcional, em que a valoração da palavra se submete ao fulgor nunca atemorizado da circunstância. 

O sexo e o silêncio, como exercícios de poder, são tópicos continuamente reconstruídos, assim como a menção ao suicídio e ao amor. Não raras vezes, também os espetadores são convidados a renegar as suas antipatias voyeuristas, num papel que se quer de desconforto. Assim, o olhar do homem sobre Hideko refrata-se no olhar contínuo daquela e de Sook-hee, criando uma preservação de igualdade e diálogo por oposição à situação de subalternidade da primeira enquanto foco de atenção masculina. 

O filme de Park Chan-wook alimenta, assim, a fornalha da discussão semântica de 'ficção', termo inquietante no caldear do natural e do artifício, pondo, de certa forma, a suposta verosimilhança, também do real, em causa, pela reiterada noção de perspetiva, cara aos pós-modernistas. De facto, e embora as três narrativas emaranhadas abram num sentido final  (e o que era se não pudéssemos distinguir a suposta verdade, que nada nos faculta essa lúbrica tentação do sonho), o jogo ficcional instaurado entre a leitura de Hideko e os seus ouvintes e observadores assina igualmente esse ténue acordo da crença, permitindo, especialmente a estes últimos, de alguma forma, suplantar a realidade e lançar-se sem pejo na imaginação sem rédea. Recria-se, portanto, sobre a imagem do corpo de Hideko, e, num jogo muito hábil, transmuta-se a personagem das relíquias bibliográficas eróticas para a ação. Esta incursão, doentia, talvez, trata a obra de arte como um veio de memória, a real verdade última, como, a propósito, Boleslas Matuszewski, operador de câmara dos irmãos Lumiére, aparentemente, e, suponho, num semblante documentarista, defendia. A partir daí, tem-se tecido inúmeras opiniões, como, de resto, quanto à literatura. A ficção é sempre e só imaginação? Vítima da ilusão, o espetador alucina; não raras vezes, alucina-se, como as personagens deste A Criada, e é precisamente a este lugar de indefinição que a arte tão gentilmente nos sujeita. (Ele há gozos dolorosos. Ou dores gozosas.) Talvez não salve, mas eleva.