Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

The party, 2017, Sally Potter – Partido em festa

15.03.19 | Cláudia Capela Ferreira

 

Assistir a Party é entrar num teatro. Efeito que só se perde a meio do filme – curto, 70 brilhantes e claustrofóbicos minutos – quase no fim, então. De facto, é uma peça de que se trata, bem dirigida e interpretada, inteligente, cínica q.b., e profundamente cómica. O trágico sempre foi o melhor condutor da gargalhada. Não se sabe se para efeito de simulação, pois ninguém é como diz ser, e/ou histriónica crítica, mas as deixas são, a par da situação e personagens, lacónicas, smart and sharp, claramente alegóricas.

Satírica, Sally Potter trata Party como roupagem dos vícios e ambivalências partidárias, fazendo confluir a ideologia, os sucessos pessoais, o narcisismo, a desvinculação e a (in)corruptabilidade num serão assaz animado. A burguesia – utópica outrora – junta-se para celebrar a proclamação de um dos seus membros, mas a festa desvirtua-se e bem pode acabar em funeral, dado o protagonismo da promiscuidade – leia-se sobretudo institucional.

I expect the worst of everyone in the name of reason, afirma April (essa maravilhosa Patrica Clarkson, partilhando a boca de cena com Kristin Scott Thomas, Bruno Ganz, Cherry Jones, Emily Mortimer, Cillian Murphy e Timothy Spall), embora todos, ideológica e moralmente, se tenham aparentemente dedicado à bela aspiração da construção do mundo justo. Porém, a sua luxúria pessoal talvez não se coadune com a inteireza das estruturas partilhadas. Viver em comunidade é mais difícil do que votar projetos-lei.