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O que cabe num nome? E o que verbaliza a sua ausência? Todos os Dias são Meus, de Ana Saragoça, lançado em 2012 e recentemente reeditado pela Planeta Manuscrito, esforça-se por responder a estas questões sobre a natureza identitária do sujeito contemporâneo. A narrativa trata de um crime e dos vários testemunhos recolhidos pela polícia no edifício da vítima, morta no elevador, esse local de dúbios e anelantes encontros.

Nem tudo é o que parece neste romance, tanto que a noção de vítima se distrai semanticamente com o objeto da sua descrição. Os habitantes deste espaço urbano encontram-se, se for o caso, no lugar da suposição e por conseguinte de multiplicação de personae, nas zonas comuns, públicas, do prédio, que são, enfim, o posto da emulação da vida dos outros e da nossa. Não é à toa, portanto, que a antiga porteira, quando questionada, imediatamente se desculpe: "Ah isso. Não, eu disso não sei de nada [...] que eu não sou de me meter na vida de ninguém". Na verdade, com a criação deste prédio, a autora, com digno zelo e ironia, controlada a técnica narrativa à la mode contista, sucinta e eficazmente, pinta a alegoria da cidade moderna, em que as paredes impossibilitam veementemente a partilha e o conhecimento. Por outro lado, dá autorização às vozes para virem à boca de cena explicitar-se, dando-nos em primeira pessoa os trejeitos e os modismos aburguesados, mas também, disfarçadamente, o egoísmo, a hipocrisia e as mais arraigadas dores e frustrações, sinal evidente de que não se trata aqui apenas de uma incauta e risível caricatura dos superficialismos da contemporaneidade, mas, sobretudo, do que, precisamente, essa imagem externa oculta, como abismo coberto por fino espelho. Este processo de ironização do mundo não é comum atualmente, voltando-se a página sobre o pastiche e a sátira, no que de profilático, ou, pelo menos, sarcástico, implicam sobre o social. Mário de Carvalho e Rui Zink, por exemplo, subvertem a sorumbática erudição com que a literatura está intrinsecamente conotada em Portugal. Ana Saragoça parece partilhar desta noção de realização por via do humor e da ironia, sem que o riso se deslumbre em si mesmo e ganhe contornos apenas lúdicos. [...]

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