Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

As Flores de Laura

livros e filmes - impressões

Uma janela para o ciúme

11.06.18 | Cláudia Capela Ferreira

La jalousie (2013), de Philippe Garrel, presta culto à tragédia silenciosa, que é forma atípica de se fazer representar, especialmente se esta incidir sobre as relações familiares. Conta-se aqui a história da ausência, do lugar de destaque e decalque firmado nos que ficam e não resistem, naturalmente, a responder a esse lugar vago à mesa. Não há discussões, gritos, expansivas demonstrações romantizadas do histerismo sentimental. O que há é sobretudo um estado de contemplação, morno, do ciúme, daquilo que, tendo sido reprimido ou deixado no passado, acentua as ações do presente. Ou, enfim, do eterno lugar do preterido, da constante afirmação do nosso estado de impermanência. De forma mais totalizante, é percetível a sórdida inteireza efémera da vida, à qual também, à revelia das nossas vontades mais conscientes, os laços familares tendem a submeter-se.

Essa nostalgia, não sendo apreensível ou totalmente dedilhada nos discursos, isto é, em declinação linguística, é-o no efeito belíssimo da fotografia, na melancolia da cor, ou da ausência dela, a preto e branco: dualismo sintético dos pesos e levezas do coração. E é nesse sentido, como, de resto, o verdadeiro cinema deve ser, que o filme, curto, dialoga com os espetadores, pois é na imagem que a história se escreve, à luz e à escuridão. Aqui, a linguagem é toda cinematográfica: é a imagem quem se encarrega de narrar o inenarrável ciúme, essa janela debruçada sobre os abismos.

O filme abre com a renúncia de Louis, interpretado por Louis Garrel, deixando Clothilde (Rebecca Convenant) e a pequena Charlotte (Olga Milshtein) e indo viver com Claudia (Anna Mouglalis). O que se assemelha a uma história de amor irrecusável vai abrindo para a interrogação da noção (se a houver) de amor, de fidelidade, de compromisso, que, incitada pela referência a Werther, adivinhamos dolorosa. Basta lembrar a paixão de Louis, a deserção do mesmo, e uma arma em cena. É que Louis, mais do que amar Claudia, ama uma negação, uma ausência, e pugna por não fazer dele próprio um ausente, nem, tampouco, novamente, um preterido. E o ciúme, enfim, é justamente essa anulação de nós mesmos em outrem.

À mesa, a filha de Louis, após a refeição com o pai e a nova mulher - como ela menciona num momento que só não resulta histriónico pela contenção verbal da personagem, mas se torna audível pela imagem, também à mesa, mas com a sua mãe, que a ouve e recebe das suas mãos o gorro da nova mulher do ex-marido, funcionando este aqui como a evidência clara de uma ausência e de um invasor - pergunta, também enciumada, quem é que o pai mais ama no mundo, para responder, ela mesma, à questão: o seu pai, ou seja, o seu fantasma, a sua ausência, o seu passado. Diria: o seu outro ele. No fundo, todos estamos empenhados na nossa figuração, na nossa eterna infância, no retorno à felicidade suprema. O estado de felicidade é o estado de presença na vida dos demais.

Percorre o filme toda uma naturalidade disfarçada, a par da exiguidade dos espaços e do despovoamento aparente da cidade, locus horrendus romântico, cujo isolacionismo e decadência permebilizarão o jovem Louis.

Mas o filme não é só isto, ou é apenas isto. Garrel transforma o inútil numa límpida poeticidade, que não sufoca pelo patético, mas macera pela serenidade macia aparente; as paixões são coisa que remói. Esta fórmula supostamente superficial de homem deixa mulher e filhos é o tratamento autobiográfico da infância do próprio realizador, dirigindo o filho, Louis Garrel, no papel do pai, Maurice Garrel, incluindo a filha, Esther Garrel, como irmã do protagonista. A psicanálise é todo um tratado artístico da alma humana.

A arte, não servindo ninguém, há de sempre servir para alguma coisa, nem que seja para resolução do passado de quem a cria. 

 

Disponível em https://www.filmin.pt/ (legendas em PT europeu)

Trailer